terça-feira, 9 de novembro de 2010

DOIS ABADES, DOIS ESTILOS


Há pouco tempo li, no jornal SOPÉ DA MONTANHA, dois artigos: um falava do Padre Castro e o outro do Padre Duarte. Os dois sacerdotes foram Abades de Tarouca. Como conheci os desaposso dar testemunho de dois homens da Igreja com estilos completamente diferentes. 0 Abade Castro batizou-me e o Padre Duarte catequizou-me.
Recordo perfeitamente a figura alquebrada do Abade Castro que, nós crianças, gostávamos de ouvir na Igreja da Misericórdia nos domingos de manhã. Não sei porquê mas impressionava-nos aquela figura vetusta de sacerdote que celebrava a Missa em latim e sobretudo encantava-nos a maneira calma e sabedora como ele falava na homilia, sempre sentado. Que percebíamos nós das suas palavras? Que é que nos atraía naquele velho padre? Ainda hoje não sei explicar, mas que nos encantava e nos obrigava a levantar cedo mesmo podendo ficar na cama. A nossa Missa era a das onze na Igreja paroquial, celebrada pelo senhor Padre Duarte.
Quanto ao Padre Duarte, as minhas lembranças são muito maiores porque desde muito novo ele fez o favor de ser meu amigo e amigo dos meus pais. Ele era um Abade totalmente diferente do Padre Castro. Procurou dinamizar a paróquia e fê-lo através daquilo que mais chamava a atenção: a exposição pública da fé e a reanimação dos valores monumentais e religiosos da paróquia. Foi ele quem conseguiu tornar a Igreja paroquial monumento nacional. Foi ele que revitalizou a romaria de S.ta Helena e começou a desenvolver o culto a Cristo-Rei. Apesar de ser sacerdote nunca se desligou das suas origens rurais porque se tornou um agricultor moderno, tentando influenciar também os pequenos agricultores seus paroquianos . A paróquia não conseguia sustentá-lo como julgo que hoje em dia não consegue e ele, como S. Paulo, não queria ser pesado aos fiéis, lutando pela sua própria subsistência. Este enraizamento no meio social que paroquiava, mereceu-lhe imensas críticas de um ou outro senhor da pequena burguesia e de certos membros da Igreja que achavam que o padre se devia confinar às paredes da igreja. Nunca cedeu a modernismos e modas, procurando sempre cumprir os seus deveres de pároco. Disso são testemunho a catequese organizada, as pregações e confissões na Quaresma, as procissões da Semana Santa, o zelo pela Igreja paroquial e muito mais. Houve episódios que demonstram bem a sua vontade firme e inflexível quando se tratava de princípios da moral cristã. Lembra-me o episódio dos bailes no salão nobre da Câmara Municipal, das homilias duras em que toda a gente calculava a quem se dirigiam e a sua ligação permanente ao Bispo.
Na catequese lembra-me de um episódio em que eu próprio, criança de oito ou nove anos, estive em cheque. Na altura, a catequese era dada na igreja para rapazes e raparigas. A senhora Sara era a catequista como sempre foi. Sei que, em determinada altura, eu portei-me mal e a senhora Sara puxou-me as orelhas. A minha mãe não gostou e, quando soube, foi pedir explicações à senhor Sara. Armou-se uma discussão e minha mãe disse: "0 meu filho sabe mais doutrina que tu." A senhora Sara quei¬xou-se ao Padre Duarte. No dia seguinte, estávamos todos reunidos para a catequese na igreja e aparece o Padre Duarte. Olhou-nos a todos e disse: "0 Carlos, que era eu, dá hoje a catequese em vez da senhora Sara.” Dito isto , obrigou-me a sentar no lugar dela para dar a catequese. É evidente que eu desatei a chorar. Depois de alguns minutos o senhor Pa¬dre Duarte mandou-me para o meu lugar e, voltando-se para as crianças, explicou: "Aqui a senhora Sara é que é a catequista porque é pessoa muito competente e da minha confiança. Quero que a respeitem como se fosse eu."
O senhor Abade afastou-se e a catequista continuou o seu trabalho. O padre Duarte não ameaçou, não bateu ,mas usou uma boa prática pedagógica.
Um dia explicarei o caso dos bailes na Câmara porque é um exemplo da maneira de ser do padre Duarte, ainda que pareça, hoje em dia, fora do tempo.
Carlos A.Borges Simão

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