terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Oração do desempregado


Senhor,
estou desempregado.
Já perdi o direito ao subsídio de desemprego,
e as solas estão gastas de tanto palmilhar
para o Centro de Emprego,
para as empresas e serviços.
Não têm conta as respostas
que dei a anúncios de trabalho...
Nada, Senhor!
Fiz cursos propostos,
andei pelas novas oportunidades,
falei a amigos e conhecidos...
Nada, Senhor!

Como aquele doente da Bíblia
que, quando conseguia chegar
às águas da Piscina Probática,
outro tinha mergulhado antes dele,
também eu me sinto
impotentemente ultrapassado.
Há sempre quem tenha uma 'cunha',
um conhecido importante,
um político de peso...
Eu sou um filho do povo, Senhor!
Que interessa a tantos
o meu passado impoluto
de trabalhador dedicado?

Sabes, Senhor,
estou cansado, deprimido,
desiludido, angustiado!
Apetece-se a desistir de tudo.
Ainda não há fome em minha casa,
graças ao poder de poupança
da minha mulher e à compreensão
de meus filhos.
Tu, Senhor, que tudo sabes,
conheces a verdade:
temos usado roupas oferecidas,
da aldeia chegam-nos
produtos agrícolas
graças à generosidade da família,
e o peixe e a carne
recebem o milagre da multiplicação.
Sabes bem, Senhor, que o único
vício que tinha eram os cigarritos.
Acabou há muito.

Embora com os joelhos da alma
feridos pela dureza das desilusões,
vou lutar.
Sei que é isso que Tu nos dizes
quando nos mandas deitar a mão à rabiça
do arado sem olhar para trás.
Lutarei contra a minha vontade de desistir,
lutarei pelo direito a um lugar ao Sol,
lutarei pelo direito de oferecer
o meu contributo de cidadão
a uma sociedade que me marginaliza.
Lutarei pela dignidade.
Lutarei pelos meus filhos.
E nunca desistirei
porque Tu estás comigo.

Sabes, bom Deus,
parece que a crise é só para os pobres
e os não-ricos!
Os ricos medram como silvas
nos campos da crise e das crises
de que eles têm a maior responsabilidade.
Porquê, meu Deus!?
Eles têm a sua voz poderosa
que sempre os defende;
nós não temos voz nem vez
e falta quem no-las empreste.
Precisamos de outros como Óscar Romero,
Hélder Câmara, António Ferreira Gomes...
Homens apaixonados por Ti, Senhor,
e que subam do barroquismo das palavras
de conveniência para a opção profética.
Senhor, porque permites
este vazio de profetismo na Tua Igreja?

Estou aqui, Senhor, ao pé de Ti.
Confiado e confiante,
em busca da Tua paz,
da serenidade que cura,
da esperança que não engana.
Livra-me da desgraça
de Te desempregar da minha vida.
Não me deixes cair na tentação
do desespero
e livra-me do mal. Ámen.

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