quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Estipêndio da missa versus valor infinito


A razão desta reflexão em torno do tema enunciado em epígrafe resulta da pergunta que me foi lançada, há uns meses, por alma bem intencionada se eu concordava com a celebração da missa por várias intenções. E eu respondi que, sem ter em conta o que esteja estabelecido pela disciplina eclesiástica, que é normativa, nada há a opor a tal prática, dado que ninguém é capaz de esgotar o valor infinito da missa.

A seguir, veio outra questão, se cada pessoa deve pagar como se a intenção da missa fosse só indicada por si ou se podia ser no sistema de cada um pagar o que entendesse. E a minha resposta foi análoga à anterior, no sentido de que tudo depende do que estiver estabelecido disciplinarmente. Com efeito, do ponto de vista teológico e doutrinal, nada há a opor a uma a outra forma de agir.

Porém, senti-me na obrigação de esclarecer que a missa – enquanto renovação do sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, já por nós entregue na ceia pascal, e banquete dos filhos de Deus e assembleia de irmãos que a ela levam as preocupações e as ofertas de si próprios e de alguns dos seus bens e dela recebem o penhor de vida eterna e o sustento espiritual para as tarefas da vida – é de valor infinito, pelo que incalculável. Assim, ninguém paga a missa.

Mesmo aquilo que se aprendeu de que uma parte do fruto da missa é para o sacerdote celebrante, outra para o fiel que oferece o estipêndio e outra pelas intenções da Igreja, além do muito mais que se possa acrescentar, não é compatível com o caráter infinito e imensurável da missa. Só é justificável esta pretensa distribuição para efeitos de arrumação metodológica.

E eu explicitei que, face às necessidades de a Igreja prover à promoção do culto, à condigna sustentação do clero e à ajuda aos pobres, é natural que as autoridades eclesiais tenham encarado a participação na missa também pelo lado do estipêndio que o fiel cristão possa dar a pretexto da celebração da missa, agregando a esta oferta alguma ou algumas das suas intenções particulares. Isto obviamente não significa paga pela missa, compra/venda ou coisa parecida, nem monopólio ou posição dominante sobre a missa – longe o agouro das sociedades comerciais ou das antigas regras de companhia. Aliás, quem estipula taxas tem referido – talvez muitos não o notem – refere que não se deve deixar de celebrar missa por quem não pode pagar.

Ora, se ninguém contesta o facto de uma pessoa solicitar a celebração da missa por uma ou por várias intenções, também não se pode contestar, do ponto de vista doutrinal, a possibilidade de a missa ser pedida por uma ou por várias pessoas – singulares ou coletivas –, cada uma com uma ou várias intenções, e oferecer cada uma um estipêndio fixo ou voluntário.

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É de recordar que os cristãos se organizaram de vários modos ao longo da História da Igreja: desde o sistema comunitário descrito no Livro dos Atos dos Apóstolos (At 2, 42-47 e 4,32-37: tinham tudo em comum e entre eles não havia necessitados) ao sistema das coletas (At 24,17; Rm 15,25-27; 1Cor 16,1-4; 2Cor, caps 8-9; Gl 2,10) e ao sistema estipendiário, hoje predominante.

Em muitas comunidades, quando as dádivas eram em produtos da terra ou dos rebanhos, a Igreja recebia o dízimo, que era destinado ao culto, aos servidores da pregação e do altar e aos pobres. E mantém-se a preocupação da Igreja pela promoção do culto e pela construção e manutenção dos templos, com a sustentação condigna do clero e com a colmatação das necessidades dos pobres. O diácono Lourenço aprestou os pobres como o tesouro da Igreja.

O estipêndio pela missa, como pelos outros serviços eclesiais, enquadra-se naquela tríplice preocupação e não no escopo de pagar – o que às vezes parece acontecer, dada a constante mercantilização da vida. E há valores que revertem para o próprio ministro da Igreja, outros para a paróquia ou comunidade local, outros para a cúria diocesana, outros para a cúria romana e outros necessariamente para as necessidades que as Igrejas entendem dever colmatar. Não se trata de simonia, que seria a compra (por dinheiro e outras mercês) de cargos eclesiásticos, bens espirituais e priorização no acesso aos sacramentos e aos sacramentais.

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Mas em relação à missa ainda se coloca outra questão: E aquelas pessoas de quem ninguém se lembra? É certo que boas almas rezam e mandam celebrar missas por aqueles que estão abandonados das orações dos crentes, mas também nos ensinavam que estes ficariam cobertos pelo tesouro espiritual da Igreja. E não devemos esquecer que a missa não é aplicável apenas por defuntos, mas por vivos e defuntos; e não é somente pelas pessoas em si, mas também por suas intenções e em ação de graças por benefícios concedidos.

Pode perguntar-se: E a obrigação de justiça da parte de quem recebe o estipêndio para com quem o confiou? De facto, a doutrina canónica fala da relação de justiça do sacerdote que recebeu dinheiros para missas. Porém, deve esclarecer-se que essa é a obrigação de quem recebeu dinheiro para com a pessoa que lho entregou. Não abrange o fruto da missa.

Gosto de comparar, embora de forma meio inadequada, o que se passa com o fruto da missa – e a obrigação de contribuir – com o que se passa, por exemplo com os impostos e os prémios de seguro. Cada cidadão paga os impostos que lhe são determinados pelo poder, obviamente conforme a capitação ou o consumo. E todos têm acesso por igual aos benefícios públicos, pelo menos de acordo com as suas necessidades e justas aspirações, como cada segurado paga o prémio estabelecido e recebe conforme o sinistro ou risco coberto, independentemente da totalidade do montante que tenha acumulado na entrega de valores premiais.

Em relação à missa, cada um deve dispor do que pode em oferta, em associação orante e serviçal, na certeza de que Deus a todos e a tudo provê, sem deixar ninguém nem nada de fora. Com efeito, o amor, a sabedoria e a misericórdia da parte de Deus são inclusivos. Convém que não sejam as pessoas a cavar a exclusão.

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Também, neste aspeto, vale a pena reparar no princípio da “lex credendi, lex orandi”. As orações eucarísticas – bastando mencionar a Oração Eucarística I (ou Cânone Romano), a Oração Eucarística II, a Oração Eucarística III e a Oração Eucarística IV. Todas nos dizem por quem se celebra a missa.

A Oração Eucarística I indica: “Nós Vo-la [esta oblação pura e santa] oferecemos pela Vossa Igreja santa e católica”. E pede-se a “paz” e a “unidade”. Depois, vem a comemoração (ou memento) dos vivos – podem nomear-se alguns – em que se fala “de todos os que estão aqui presentes”…, que “Vos oferecem este sacrifico de louvor por si e por todos os seus, pela redenção das suas almas, para a salvação e segurança que esperam”. Vem, a seguir a comemoração dos santos, especificando-se alguns, mas rematando, “e de todos os santos”. Ainda antes da consagração, se refere “a oblação que nós, vossos servos, com toda a vossa família Vos apresentamos”. Já depois da consagração, pede-se que a oferenda (agora o Corpo e Sangue de Cristo) seja apresentada no altar celeste, “para que todos nós, participando deste altar, pela comunhão do Corpo e Sangue do vosso Filho, alcancemos a plenitude das bênçãos e graças do Céu”. A seguir, temos a comemoração (ou memento) dos defuntos: podem especificar-se uns tantos (os das intenções pedidas), mas, pede-se, “Concedei-lhes, Senhor a eles e a todos os que descansam em Cristo o lugar da consolação e da paz”.

A Oração Eucarística II é menos pródiga nestas referências, mas traz o essencial:

“Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa Igreja, dispersa por toda a terra, e tornai-a perfeita na caridade em comunhão com o Papa N…, com o nosso Bispo N… e todos aqueles que estão ao serviço do vosso povo”.

Pode fazer-se menção daquele(s) defunto(s) por quem se tem a intenção especial de celebrar. Todavia, a seguir, rezamos pelos (outros) “nossos irmãos que adormeceram na esperançada ressurreição e de todos aqueles que na vossa misericórdia partiram deste mundo”. E pedimos ao Senhor que “tenha misericórdia de nós” e nos dê “a graça de participar na vida eterna” na companhia de “todos os santos”. É a comunhão com a Igreja celeste.

A Oração Eucarística III tem uma formulação parecida com a anterior, mas suplica:

“Por este sacrifício de reconciliação, dai, Senhor, a salvação e a paz ao mundo inteiro; confirmai a vossa Igreja na fé e na caridade, ao longo da sua peregrinação na terra, com o vosso servo o Papa N…, o nosso Bispo N… e todos os Bispos e ministros sagrados, e todo o povo por Vós redimido. Atendei benignamente às preces desta família, que Vos dignastes reunir na vossa presença.”.

Depois, roga-se:

“Reconduzi a Vós, Pai de misericórdia, todos os vossos filhos dispersos”.

E a comemoração dos defuntos é como segue:

“Lembrai-Vos dos nossos irmãos defuntos e de todos os que morreram na vossa amizade. Acolhei-os com bondade no vosso reino, onde também nós esperamos ser recebidos, para vivermos com eles eternamente na vossa glória, por Jesus Cristo, nosso Senhor.”

E a Oração Eucarística IV é um autêntico memorial da História da Salvação e da ação de Jesus Cristo na Ceia, na Cruz, na descida à mansão dos mortos, na ressurreição e ascensão. E, “enquanto esperamos a sua vinda gloriosa, nós Vos oferecemos o seu Corpo e Sangue, o sacrifício do vosso agrado e de salvação para todo o mundo”. É isto que se reza.

E temos a menção de “todos aqueles por quem oferecemos este sacrifício”:

“O vosso servo o Papa N…, o nosso Bispo N… e todos os Bispos e ministros sagrados, os fiéis que Vos apresentam as suas ofertas, os membros desta assembleia, todo o vosso povo santo e todos aqueles que Vos procuram de coração sincero”.

Depois, vem a pequena comemoração dos defuntos, sem a hipótese de especificação:

“Lembrai-Vos também dos nossos irmãos que adormeceram na paz de Cristo e de todos os defuntos cuja fé só Vós conhecestes”.

Finalmente, vem a comunhão com a Igreja celeste e com todo o universo – na globalização cósmica:

“E a todos nós, vossos filhos, concedei, Pai de misericórdia, a graça de alcançarmos a herança do Céu, com a Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, São José, seu esposo, os Apóstolos e todos os Santos, para que, no vosso reino, com a criação inteira liberta do pecado e da morte, cantemos eternamente a vossa glória por Jesus Cristo, nosso Senhor”.

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Por mais voltas que se dê e por mais e melhores estipêndios que se estabeleçam, ninguém nem nada fica excluído da Celebração Eucarística. É a reunião de todos os filhos de Deus com as circunstâncias que os rodeiam. É a oferta do povo santo, em nome de toda a criação aleluiática.

O valor da missa é, pois, infinito e imensurável. Importa aderir, aceitar e celebrar para glória do nome de Deus e para bem de toda a santa Igreja ao redor da qual se espera que todos venham a reunir-se!

2016.11.25 – Louro de Carvalho

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