segunda-feira, 28 de março de 2016

É a Páscoa!


 

A Páscoa marca o tempo e os lugares. Como esperançosa marca do tempo, fica assinalada nas culturas dos povos antigos e, em especial no povo de Deus, tanto no do Antigo Testamento como no do Novo Testamento, bem como em cada um dos anos da nossa era; e como inapagável marca dos lugares que assinala, reveste de festa, lazer, encontros, floração e vida.

Os antigos festejavam-na como festa do novo rebentar da Natureza materializado na verdura, floração, sementeiras e usual mudança do tempo atmosférico. Ainda não era verão, mas já não era o inverno do rigor gelado, ventoso e encharcadiço, que tinha passado. A Natureza renova-se rejuvenescendo!

Os hebreus, depois do tempo da escravidão no Egito, passaram a celebrar a Páscoa como “passagem”, libertação determinada e operada pelo Senhor da amargura de vida sob o império faraónico para a terra prometida, não sem o difícil trânsito pelos meandros do deserto – agora sob a guia da Lei outorgada por Deus a Moisés no Sinai. Esta outorga da Lei constitui a aliança entre Deus e o seu povo, selada no sangue sacrificial dos touros e dos cabritos ou dos cordeiros, e que, pela observância das normas da Lei da parte do povo, garantia da parte de Deus a proteção sempre e em toda a parte. Era considerada a nova criação, para aquele povo, talvez mais maravilhosa que a primeira criação, a do livro do Génesis (cf Gn 1,1 - 24). Por isso, apesar de inúmeras vezes o povo ter infringido a Lei e, sobretudo, adorando os ídolos como se fossem outro Deus e fazendo demasiada na fé em alianças com outros os povos, todos os anos – na sua terra, no exílio ou na diáspora – as famílias judaicas celebravam nesta época do ano a Páscoa. Celebravam-na em casa ou na tenda, de pé, rins cingidos, cajado na mão, fazendo a leitura da Lei (no atinente ao memorial da saída do Egito), pronunciando a bênção, entoando o cântico de libertação e tomando a refeição de peregrino. Esta refeição tinha por base o pão ázimo (aquando da libertação do Egito, não houve tempo para que o fermento levedasse a massa), o cordeiro ou cabrito macho e sem mácula, com ervas amargas, e, como bebida, o vinho com água. (cf Ex 13,3-10).

A Páscoa de Cristo foi celebrada com os discípulos em Jerusalém à boa maneira judaica, mantendo basicamente a tradição bíblica (cf Lc 22,7-13). Porém, como Ele veio inaugurar um tempo novo ou a plenitude do tempo (vd Gl 4,4), insuflou na Páscoa, transmitida pela tradição bíblica, um novo sentido. Está aqui o Reino de Deus. Esta presença do Reino postula a reformulação da Aliança. Esta aliança deixa de ser assinalada pelo sangue de touros ou de cordeiros e cabritos, mas passa a ser celebrada no sangue de Cristo, o que significa a desistência dos sacrifícios que se faziam todos os anos com outros cordeiros ou com outros cabritos pascais e se assume o sacrifício de Cristo, feito por uma só vez e a valer para sempre pela remissão dos pecados. Este sacrifício realiza-se em dois momentos: no contexto do banquete, em que Ele abençoa o pão e o vinho e os consagra em Seu Corpo e Sangue e reparte por todos como entrega pela humanidade, dizendo-lhes que aquele pão e aquele vinho são o seu corpo e sangue e ordenam que comam e bebam (cf Lc 22,14-20); e no calvário, no dia seguinte, depois de Se deixar manietar quando estava em oração no Monte das oliveiras, condenar e conduzir à cruz onde Se imolou no Calvário (cf Lc 22, 39 – 23,49).

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Porém, a Ceia e o Calvário, não acontecem sem que seja lavrado em testamento o mandamento novo do amor fraterno como marca dos cristãos, ficando-se a saber que ninguém tem maior amor que Aquele que dá a vida pelos outros (cf Jo 13,34-35; 15,9-17). E a Ceia e o Calvário presentificam-se todos os anos como celebração da Páscoa histórica, semanalmente para celebração do Dia do Senhor, que veio, que está e que há de vir, e diariamente sempre que se celebra a liturgia do Altar precedida pela celebração da Palavra. Mas a morte de Cristo não se repete; presentifica-se renovando a distribuição da graça, do alimento, da edificação da unidade e do reforço da fraternidade.

E isto não aconteceria se Cristo permanecesse morto. Morto não dá vida, não alimenta, não reúne em definitivo. Morto junta para luto, mas divide com as partilhas. Os cristãos dividiram-se porque quiseram fazer prevalecer a morte sobre a Ressurreição. Entretidos na disputa pela herança, não deram conta de que a cruz do Calvário se transformou em cruz florida na Páscoa, disponível para todos…

Quero então dizer que a morte de Cristo não passou do terceiro dia. Como as Escrituras, que ele explicou aos discípulos de Emaús na tarde daquele primeiro dia da semana, garantiam, Ele ressuscitou. Aqueles dois discípulos reconheceram-No na bênção e na partilha do pão. Depois, “levantaram-se e voltaram imediatamente a Jerusalém onde encontraram reunidos os onze apóstolos e os seus companheiros, que lhes confirmaram: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” (Lc 24,33-34). 

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Por isso, hoje e a partir de hoje, estamos em Páscoa: Páscoa da Natureza, Páscoa da vida renascente, ressemeada, reflorida, reverdejante e “refrugífera”; Páscoa da libertação e da liberdade; Páscoa da graça e da misericórdia; Páscoa da paz e do perdão; Páscoa de Cristo ressuscitado e dos homens redimidos; Páscoa de Deus e da Igreja; Páscoa da Fé e da Esperança; Páscoa da Caridade e da Justiça; Páscoa do Espírito Santo e da missão; Páscoa da bênção e da alegria; Páscoa da vitória do amor sobre o pecado, o demónio e a morte; Páscoa dos apóstolos e dos discípulos; Páscoa de crentes e não crentes; Páscoa dos doentes, dos cativos, dos pobres e dos descartados pela sociedade; Páscoa da glória no Céu e da paz na Terra.

É a Páscoa que leva o Papa Francisco proclamar Urbi et Orbi, em 27 de março de 2017: “Jesus Cristo, encarnação da misericórdia de Deus, por amor morreu na cruz e por amor ressuscitou. Por isso, proclamamos hoje: Jesus é o Senhor!

É a Páscoa em que a Ressurreição de Jesus cumpre em pleno a profecia dos Salmos 117 (116) e 118 (117), “a misericórdia de Deus é eterna, o seu amor é para sempre, não morre jamais” e faz dizer ao Papa que “podemos confiar completamente N’Ele, e damos-Lhe graças porque por nós Ele desceu até ao fundo do abismo” (vd mensagem Urbi et Orbi, 27 de março de 2016).

É a Páscoa que nos faz reconhecer que só Deus pode preencher com o seu amor os “vazios espirituais e morais da humanidade” e “os vazios que se abrem nos corações e que provocam ódio e morte”. Diante deles “somente uma infinita misericórdia nos pode dar a salvação e não permitir que submerjamos, mas continuemos a caminhar juntos em direção à Terra da liberdade e da vida”. (id et ib).

É a Páscoa que nos motiva ao anúncio jubiloso por toda a parte “Jesus, o crucificado, não está aqui, ressuscitou (cf Mt 28,5-6) e nos oferece “a certeza consoladora de que o abismo da morte foi transposto e, com isso, foram derrotados o luto, o pranto e a dor” (cf id et ib; Ap 21,4).

É a Páscoa que nos mostra o Senhor, que “sofreu o abandono dos discípulos, o peso duma condenação injusta e a vergonha duma morte infame” e nos faz agora, com a sua Ressurreição, “compartilhar a sua vida imortal e nos oferece o seu olhar de ternura e compaixão para com os famintos e sedentos, com os estrangeiros e prisioneiros, com os marginalizados e descartados, com as vítimas de abuso e violência” (vd mensagem Urbi et Orbi, 27 de março de 2016).

É a Páscoa que devemos celebrar, “não com o fermento velho e da malícia e corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade” (1Cor 5,8).

É a Páscoa que nos faz procurar “as coisas do Alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus Pai, e aspirar, não às coisas da terra, mas às coisas celestes” (Cl 3,1-2).

É a Páscoa – “caminho de misericórdia e fraternidade” – que devemos celebrar “com um coração renovado, aberto à imensidão do Amor de Deus”, com preconiza o Bispo do Funchal (cf mensagem de 27 de março).

É a Páscoa que, evocando os sofrimentos, lutas, “solidão e tristeza” de tantas pessoas”, salienta que “a ressurreição de Jesus, celebrada pelos cristãos, é um sinal de “esperança” (id et ib).

É a Páscoa que “é Cristo ressuscitado a penetrar nas nossas vidas e no coração da humanidade” e “o triunfo da vida e do amor sobre o pecado, o sofrimento e a morte” ” (id et ib).

É a Páscoa da “eterna misericórdia de Deus” que ilumina a fragilidade humana e que “é luz nas nossas noites, é festa da vida, é esperança renascida a gritar um novo cântico de ternura e de amor” (id et ib).

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Num mundo “cheio de pessoas que sofrem no corpo e no espírito, enquanto as crónicas diárias estão repletas de relatos de crimes brutais, que, muitas vezes, têm lugar dentro do lar, e de conflitos armados numa grande escala, que submetem populações inteiras a provas inimagináveis” (Francisco, Urbi et Orbi) …

… A continuação de Santa Páscoa para todos, a dar a primazia às pessoas, que são rosto de Deus!

2016.04.27 – Louro de Carvalho

 

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