terça-feira, 24 de março de 2015

VALE A PENA VIVER (e morrer) ASSIM




1. Há vidas que sabem a morte. Há mortes que sabem a vida.
Faz hoje, dia 24 de Março, 35 anos que D. Óscar Romero, Arcebispo de S. Salvador, foi assassinado.
A morte foi arrebatá-lo no meio da Missa e no auge da missão. A Missa celebra a entrega de Cristo pela humanidade. A missão de Óscar Romero foi uma entrega, em Cristo, para que a humanidade dos mais pobres fosse respeitada.
Ninguém o aconselhava a ser assim. Aliás, todos lhe recomendavam que não fosse assim. Era mais normal. Mais cómodo. Mais tranquilo. Provocaria menos ondas e muito menos danos.
Ninguém obrigou D. Óscar Romero a fazer o que fez. Ele é que se sentiu obrigado a proceder como procedeu.


2. Eis o modelo de um cristão (e, a fortiori, de um bispo) cuja atualidade não pára de crescer. A muitos títulos, é um exemplo para todos. Permitia-me destacar apenas três características que avultam da sua trajetória.
Foi Óscar Romero, em primeiro lugar, um homem de profunda espiritualidade. A sua acão era o corolário da sua oração. Foi junto de Deus que sentiu o alento, o estímulo e o apoio para anunciar a verdade e denunciar as injustiças.
Afirmou-se, em segundo lugar, como alguém estruturalmente independente em relação ao poder. Esta liberdade, que escorre no Evangelho, não o inibia de conviver com os poderosos, mas fazia-o sem subserviências.
Como os apóstolos da primeira hora, não calava o que via e ouvia (cf. Act 4, 20). Alinhado foi só com a sua consciência, jamais com interesses.
Finalmente, recusou ser neutral, ainda que à custa da própria vida. Foi a voz dos sem voz, o eco dos espezinhados e amordaçados. Envolveu-se. Empenhou-se. Não recuou nem perante as ameaças. Não pensou no que outros podiam pensar. Não andou às curvas, mas em linha recta. Não trazia máscaras. Foi autêntico. Foi firme. Foi ele. Foi Cristo nele.

 
3. Óscar Romero conseguiu ver Deus no lugar onde Deus Se encontra: no ser humano, particularmente nos mais desfavorecidos.
Profundamente espiritual, votou a sua vida a Deus e devotou o seu sangue pelo próximo. Porque era Homem de Deus, tornou-se um Homem para os homens: um Homo Dei é sempre um Homo homnibus.
A sua palavra interpela-nos ainda hoje quando nos diz que «temos cristãos de missas dominicais e de semanas injustas».
Não vacila nos princípios: «Jamais pregamos a violência. Só a violência do amor, a que deixou Cristo cravado numa cruz, assume cada um para vencer os seus egoísmos e para que não haja desigualdades tão cruéis entre nós. É a violência do amor, a da fraternidade, que converte as armas em foices para o trabalho».

 
4. A Igreja e o mundo precisam de pastores assim: cheios de Deus, cheios de amor, cheios de humanidade. Capazes de amar até ao fim. Capazes de perdurar para lá do fim.
D. Óscar foi morto por causa da sua verticalidade. Recebeu ameaças sucessivas para que se calasse. Não se calou. Humilde, considerava não ser digno da «graça do martírio».
Mas as balas surgiram e irromperam, cruéis, pela Igreja em que oficiava. D. Óscar Romero levou a Eucaristia à vida e à morte. Foi alguém que leu o Evangelho nos livros e o reescreveu na (sua) existência.
Morreu com um tiro no coração. Porque era o seu coração que mais incomodava.
Curiosamente é no coração das pessoas que D. Óscar subsiste. E é no coração de Deus que D. Óscar se mantém vivo e vivificante.
Vale a pena viver assim. Vale a pena morrer assim. Tanto mais que quem assim morre nunca se ausenta. Permanece para sempre!
Fonte: aqui

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