sábado, 3 de agosto de 2013

«DEFESO» NA FÉ?

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1. Já tivemos o defeso no futebol. Parece que ainda estamos no defeso da política. E, às vezes, dou comigo a pensar se esta não será também a época de um certo defeso da fé.
 
É verdade que, pelo menos exteriormente, abundam manifestações de fé. Não há terra em que não passe uma procissão. Não há ermida onde não se faça uma romaria. Não há aldeia onde não haja multidões.
 
São muitos os forasteiros. Umas vezes, parecem peregrinos. Outras vezes, portam-se como turistas. Outras vezes ainda, comportam-se como meros foliões.
 
 2. Sendo assim, será que estamos mesmo diante de manifestações de fé? Olhemos, por um lado, para os orçamentos das festas e, por outro lado, para a pobreza de muitas pessoas.
 
Se, como alertou S. Paulo, a fé actua pela caridade (cf.Gál 5, 6), era muito mais belo se as quantias que se gastam nestes dias ajudassem a matar a fome a tanta gente. O próprio Deus seria muito mais honrado. E a fé sairia infinitamente mais fortalecida!
 
3. O certo é que, não obstante a crise, Portugal «converte-se numa marcha de foguetes e músicas». O retrato de Juan Rubio acerca de Espanha ajusta-se perfeitamente ao nosso país.
 
E o mais curioso é que, «numa sociedade que, a cada dia, se diz mais descristianizada, menos crente e mais secularizada», estas festas são dedicadas à Virgem Maria e aos Santos.

4. No entanto, a vivência religiosa parece residual. Dá a impressão de que o religioso é mais o pretexto do que o motivo da festa. As imagens dos santos surgem nos cartazes e figuram nos andores, mas o ambiente folgazão e o impulso gastador combinam pouco com a sobriedade evangélica.
 
Com as festas, a economia das populações ganha um pouco. Mas será que a formação cristã das pessoas cresce alguma coisa? Dir-se-ia que, nestes tempos, se esquece não só a crise, mas também a fé...
 
5. Há duas abordagens habituais, mais sussurradas que assumidas, em torno destes epifenómenos. Uma é mais preguiçosa. A outra é mais belicosa. Ambas correm o risco de não aprofundar o debate nem de ajudar a alterar a realidade.
 
A abordagem mais preguiçosa exalta a situação ou, então, resigna-se a ela. Vê tudo isto como sinal de vitalidade do país profundo e como expressão de uma fé genuína, não controlada pela hierarquia.
 
Nos seus antípodas, há uma abordagem mais belicosa, que não descortina qualquer valor nas festas. Limita-se a tolerá-las, dando por adquirido que jamais se poderão melhorar.

6. Resultado.
 
No primeiro caso, existe uma assimilação acrítica que se limita a seguir a corrente.
 
Já no segundo caso, opta-se por uma avaliação tão (impiedosamente) crítica que nem pondera a menor tentativa de transformação. E é assim que tudo tende a continuar como sempre.
 
7. Não falta, como observa Juan Rubio, quem, «com mais emoção que cabeça, diga que a nova evangelização começa por aqui, justificando-se deste modo a falta de imaginação pastoral».
 
Acontece que evangelizar não é só manter; também é mudar. É claro que haverá sempre resistências e dores. Mas não podemos recuar nem desistir. Não se trata de demolir ou de apagar. Em todo o crescimento, há que polir e discernir.
 
Nas festas de Verão, «haverá que manter o essencial, o importante. O resto será para limar e purificar».

8. Afinal, as festas são para nós ou para Deus?
 
S. João da Cruz não hesitava: «Os homens fazem as festas mais para eles do que para Vós, Senhor»!
 
Mas, nesse caso, porque é que se teima em usar o nome de Deus e a imagem dos santos?
 
Fonte: aqui

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