sexta-feira, 2 de março de 2012

II Domingo da Quaresma - AnoB

--
Leituras: aqui

1. Bem longo é o arco de tempo, que vai de Noé a Abraão! Mas agora a aliança de Deus, com a Humanidade inteira, vai passar pela escolha de um Povo, a quem Deus quer entregar uma Terra! Para isso, Deus chama e escolhe Abrão. Com Ele e através dele, Deus quer construir uma história de amor, uma vida em aliança com o seu Povo! A aliança, que Deus conclui com Abrão, é ainda e sobretudo uma Promessa: a promessa de um descendente, Isaac, «o sorriso de Deus» e, a partir dele, a promessa de uma grande descendência! Abraão não será apenas pai biológico de um filho chamado Isaac. Mas, pela sua fé, Abrão estará na origem de uma enorme descendência! E por isso tornar-se-á “pai de uma grande multidão” de crentes, como o sugere o seu novo nome: Abraão!
2. No coração desta aliança, está Isaac, o filho único de Abraão! Isaac era, para o velho pai, o sinal da promessa e da recompensa de Deus, era o penhor e a garantia da infinita descendência, que lhe fora prometida! Por isso, a prova a que é sujeita Abraão, no drama do sacrifício de Isaac, seu Filho único, «o filho a quem tanto ama», torna-se muito dura; parece pôr em causa a própria aliança, com Deus! Mas o drama terrível desta história e o seu desfecho maravilhoso põem em evidência que Deus dá a vida e não no-la tira nunca.
3. Neste Ano da família, em que queremos caminhar “juntos na arca da aliança” permitam-me tirar hoje dessa arca alguns tesouros de sabedoria:
Com Abraão, aprendemos a ver os filhos, como um «sorriso de Deus», a ver cada filho, como um filho único, um dom inestimável, uma bênção divina e um tesouro para a família! “No dom de um filho realiza-se sempre o bem comum da família” (João Paulo II, Carta às Famílias, 1994,n.11). Os filhos são o melhor património do vosso matrimónio! A partir daqui, cada pai, cada mãe pode e deve dizer: «meus filhos, meus tesouros»! Amai-os como Deus, antecipando-vos sempre no amor!
A paternidade espiritual de Abraão, «pai dos crentes», ajuda-nos a perceber que a vida só é dada totalmente a um filho, quando, com o nascimento, são dados também o amor e o sentido, que tornam possível dizer «sim» a essa vida recebida (cf. Bento XVI, Discurso, 5.06.2005).Chamar à vida um filho implica também oferecer-lhe o sentido que essa vida tem, no horizonte da sua relação com Deus. Por isso, a fecundidade dos pais, não se esgota na transmissão biológica da vida numa família humana, mas prolonga-se na educação e na transmissão viva da fé, no âmbito de uma vasta família divina, que é a Igreja!
Há uma voz que vem do alto e diz a Abraão: “não levantes a mão contra o teu Filho, o teu filho único”. A mesma voz, vinda do céu, diz aos discípulos: “Este é o Meu Filho muito amado. Escutai-O”. Numa palavra: o Pai diz que é preciso escutar o Filho. Sim: é preciso escutar Jesus, a Palavra eterna que se fez Carne, sem a qual nada percebemos da vida. Mas Deus pode dizer mais alguma coisa: “escuta o Teu filho, o teu filho único”, e mesmo quando são vários filhos, cada um é “único no mundo”! Ouve atentamente as suas perguntas! O Papa sugere-nos que, nesta quaresma, estejamos mais atentos uns aos outros.
4. Eu diria que Abraão nos ensina a escutar um filho, com as suas respostas diretas e incómodas, que preferíamos calar. Mais ainda: Abraão desafia-nos a dar respostas, que vão ao essencial: «Deus providenciará». Na verdade, «todas as respostas que não chegam a Deus, são sempre demasiado curtas» (Bento XVI). É mesmo preciso ouvir os filhos, para não os virmos a perder para sempre! É a voz do Pai que continua a dizer bem lá alto que é preciso escutar o Filho!
5. Queridos irmãos e irmãs: permitam-me ainda fixar-me neste ponto: É mesmo preciso ouvir os filhos, para não os virmos a perder para sempre! Escutemos, sobretudo, as crianças.
“Temos que aprender a escutar as crianças. Escutá-las não quer dizer obedecer-lhes, nem tão pouco responder afirmativamente a todos os seus desejos. Devemos aprender a escutá-las, para que elas aprendam também a escutar os adultos. Só se as escutarmos, poderemos saber aquilo que se passa com elas. Ao falar, ensinamos a falar. E ao escutar, ensinamos a escutar.Nós, adultos, só poderemos captar os seus medos, os seus complexos, as suas inseguranças e os seus receios se as escutarmos atentamente. Uma lição sem escuta prévia acabará por cair em saco roto.É preciso escutar as crianças, porque nelas subsiste uma dose imaculada de inocência. Dizem o que pensam, expressam de forma espontânea o que têm dentro, fazem afIorar as contradições em que os adultos caem. Por vezes, são incómodas, fazem-nos corar, quebram tabus, e nós, bem lá no fundo, pensamos que seria melhor se elas se calassem! Mas, precisamente por isso, há que escutá-las: são apóstolos da inocência. Esta transparência dói-nos, porque nos faz ver que o mundo que construímos poderia afinal ser outro” (Francesc Torralba, A arte de saber escutar, Ed. Guerra e Paz, Lisboa 2010, 121-125).
E pode mesmo, se ainda houver quem escute as crianças; e se porventura ainda houver daqui a algum tempo crianças para escutar! “Este é o Meu Filho único, escutai-O”! Escutai-O.
Fonte:  aqui

Sem comentários:

Enviar um comentário