Homilia – 16.º Domingo do Tempo Comum (Ano A)
Há uma pergunta que atravessa as leituras de hoje: se Deus é bom e o seu Reino está presente, porque continua o mal a crescer?
É uma pergunta antiga, mas profundamente atual. Basta olhar à nossa volta. Há guerras, violência, corrupção, mentira, divisões nas famílias, pobreza ao lado da abundância. E perguntamos: Se Deus semeou boa semente, de onde vem o joio?
É exatamente essa a pergunta dos servos da parábola. Mas eles dão logo um passo que também é muito nosso: «Queres que vamos arrancá-lo?»
Querem resolver o problema rapidamente. Separar os bons dos maus. Limpar o campo.
Jesus responde de uma forma desconcertante: «Não.»
Não porque o mal seja indiferente a Deus. Não porque tudo seja igual. Mas porque Deus conhece o coração humano melhor do que nós. Sabe que a história das pessoas nunca está terminada. Sabe que quem hoje parece joio pode ainda dar fruto. E sabe também que quem se julga trigo pode perder-se pela soberba.
Por isso, Deus não atua com a lógica da eliminação, mas com a lógica da conversão.
Vivemos numa sociedade que perdeu a paciência. Quer resultados imediatos, culpados imediatos, condenações imediatas. Nas redes sociais basta um erro para uma pessoa ficar definitivamente etiquetada. Na política e até na Igreja, depressa dividimos as pessoas entre as que são "das nossas" e as que são "contra nós".
Jesus recusa essa lógica.
O seu Reino não cresce eliminando pessoas, mas oferecendo-lhes tempo para mudar.
É isso que já dizia a primeira leitura. O verdadeiro poder de Deus não consiste em esmagar. Consiste em exercer a justiça com misericórdia. Deus pode tudo, precisamente porque não precisa de recorrer à violência para afirmar o seu poder.
Mas a parábola torna-se ainda mais exigente quando percebemos que o campo não é apenas o mundo. É também o nosso coração.
É muito fácil identificar o joio na sociedade, na Igreja ou nos outros. Mais difícil é reconhecer aquilo que impede o Reino de crescer em nós: o orgulho, a indiferença, a falta de perdão, a inveja, a acomodação.
Talvez seja por isso que Jesus nos pede, antes de tudo, que deixemos Deus trabalhar a nossa vida.
No fim, será Ele quem fará a separação. A nós pede-se outra coisa: sermos boa semente. Num ambiente onde cresce a mentira, semear verdade. Onde cresce o ódio, semear reconciliação. Onde cresce o egoísmo, semear serviço. Onde cresce o desânimo, semear esperança.
É assim que o Reino de Deus cresce: não fazendo mais barulho do que o mal, mas produzindo mais fruto do que ele.
E talvez a pergunta que devemos levar connosco seja esta: na minha família, no meu trabalho, na minha comunidade, sou alguém que ajuda o trigo a crescer ou passo a vida à procura do joio?
É dessa resposta que depende a forma como colaboramos com a obra de Deus.
Peçamos hoje ao Senhor um coração semelhante ao d'Ele: paciente sem ser indiferente, firme sem ser duro, misericordioso sem deixar de amar a verdade. Que saibamos confiar que Deus continua a trabalhar, mesmo quando os frutos ainda não são visíveis.
E quando nos sentirmos desanimados diante do mal que vemos no mundo ou dentro de nós, recordemos que Deus nunca desiste da sua seara. Ele continua a cuidar do campo, a esperar pelo tempo da colheita e a oferecer a cada um a possibilidade de recomeçar.
Ao aproximarmo-nos da Eucaristia, peçamos a graça de sermos boa semente nas mãos de Deus: nas palavras que dizemos, nas escolhas que fazemos, no perdão que oferecemos, na esperança que transmitimos. Porque o Reino de Deus não cresce pela força nem pelo medo, mas pela fidelidade silenciosa de quem se deixa transformar por Cristo.
Que Cristo Rei, sempre de braços abertos, nos ensine a confiar na paciência do PAI e a colaborar com alegria na construção do seu Reino. Amen.
