Perdão sem limites
Há coisas que custam muito na vida.
Uma delas é perdoar.
Talvez porque, quando alguém nos magoa, não fica apenas uma recordação. Fica qualquer coisa dentro de nós. Uma ferida, uma tristeza, uma desilusão. Às vezes, até uma certa amargura.
E há mágoas que ficam anos.
Podemos continuar a nossa vida, fazer as nossas coisas, encontrar essa pessoa de vez em quando… mas aquela história continua lá, dentro de nós.
É por isso que o perdão é tão difícil.
A Palavra de Deus fala-nos hoje precisamente disso.
Pedro pergunta a Jesus:
«Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe?»
Pedro quer saber qual é o limite. Até onde temos de ir.
Jesus responde:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.»
Não é uma questão de fazer contas.
Jesus está a dizer-nos: não transformes o perdão numa contabilidade.
Porque, quando começamos a contar, o coração fica preso ao passado:
«Eu já lhe perdoei uma vez...»
«Depois daquilo que me fez, ainda quer que lhe perdoe?»
«Eu perdoo, mas não esqueço.»
E talvez seja precisamente aqui que começa o nosso problema.
Porque, muitas vezes, dizemos que perdoámos, mas continuamos a viver presos àquilo que aconteceu.
A pessoa já seguiu a sua vida.
Nós é que continuamos a carregar aquela história.
E Jesus conta então uma parábola.
Um homem tem uma dívida enorme e o seu senhor perdoa-lhe tudo.
Mas, logo a seguir, esse homem encontra alguém que lhe deve muito menos e exige-lhe que pague.
É uma imagem muito forte.
Ele recebeu misericórdia, mas não foi capaz de dar misericórdia.
E talvez seja esta a pergunta que o Evangelho hoje nos deixa:
Não será também assim connosco?
Nós pedimos a Deus tantas vezes:
«Senhor, perdoa-me.»
E confiamos que Deus não fica a contabilizar as nossas faltas.
Mas, quando é o outro que nos magoa, já somos muito mais exigentes.
Deus conhece as nossas fraquezas e continua a dar-nos uma oportunidade.
Nós, às vezes, olhamos para o outro e pensamos:
«Comigo acabou.»
É aqui que o Evangelho nos provoca.
Não para nos dizer que aquilo que nos fizeram não foi importante.
Nem para dizer que devemos fingir que nada aconteceu.
Há coisas que doem. Há injustiças que deixam marcas. Há relações que ficam profundamente feridas.
Perdoar não é dizer que o mal foi bem feito.
Perdoar é não deixar que o mal continue a mandar em nós.
É talvez a diferença mais importante.
Porque o ressentimento prende-nos.
Ficamos dependentes daquilo que o outro fez. A nossa paz fica nas mãos daquela pessoa.
E o perdão, pouco a pouco, devolve-nos a liberdade.
Nem sempre significa voltar a ter a mesma relação. Nem sempre significa esquecer. Às vezes, até é necessário manter uma certa distância.
Mas significa deixar de alimentar dentro de nós aquilo que nos destrói.
E isto é muito concreto na nossa vida.
Acontece entre marido e mulher.
Acontece entre pais e filhos.
Acontece entre irmãos.
Acontece entre amigos.
Acontece também nas nossas comunidades.
Às vezes, começa por uma palavra. Uma decisão. Um mal-entendido. Uma coisa que alguém fez e que nos magoou.
Depois vem o silêncio.
Deixa-se de falar.
Cumprimenta-se apenas por educação.
E passa o tempo.
E, quando damos por isso, passaram-se anos.
Talvez nenhum dos dois já se lembre exatamente de como tudo começou.
Mas ninguém dá o primeiro passo.
Quanto sofrimento se prolonga simplesmente porque ninguém quer ser o primeiro a dizer: «Vamos conversar»?
É por isso que o perdão não é uma ideia bonita.
É uma necessidade da nossa vida.
Sem perdão, uma família pode ficar dividida durante anos.
Sem perdão, amizades acabam.
Sem perdão, uma comunidade perde pessoas.
Sem perdão, nós próprios vamos ficando mais duros por dentro.
E talvez por isso Jesus nos diga hoje que devemos perdoar «setenta vezes sete».
Não porque seja fácil.
Mas porque há coisas que só o perdão consegue libertar.
E nós sabemos isso também pela nossa própria experiência.
Que bem nos faz quando alguém, depois de uma mágoa, nos diz:
«Eu perdoo-te.»
Que alívio quando conseguimos finalmente dizer a alguém:
«Desculpa-me.»
Há momentos em que essas palavras mudam uma relação.
E há momentos em que mudam uma vida.
Por isso, talvez hoje não seja preciso pensar em grandes teorias sobre o perdão.
Basta pensar numa pessoa.
Há alguém que ainda não conseguimos perdoar?
Há alguém com quem precisamos de dar um primeiro passo?
Ou talvez sejamos nós que precisamos de pedir perdão.
Não é preciso resolver tudo hoje.
Talvez seja apenas preciso começar.
E, quando nem isso conseguimos, podemos ao menos levar essa pessoa à oração e dizer:
«Senhor, eu ainda não consigo perdoar. Mas não quero continuar a viver assim. Ajuda-me.»
Talvez seja aí que começa o perdão.
Porque o perdão não nasce apenas da nossa força.
Nasce também da experiência de sermos perdoados.
É isso que a primeira leitura nos recorda: Deus conhece a nossa fragilidade e é misericordioso connosco.
E talvez a grande conversão de que precisamos seja esta:
deixar que o perdão que recebemos de Deus transforme a maneira como olhamos para os outros.
No fundo, é isto que Jesus nos pede.
Não que sejamos perfeitos.
Mas que não deixemos morrer a possibilidade de recomeçar.
Que não fechemos definitivamente a porta.
Que não permitamos que uma ferida tenha a última palavra.
Porque onde há perdão, pode haver um recomeço.
E onde há um recomeço, há sempre um pouco mais de vida.
Amen.