segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

PODER-SE-Á FALAR DE UM «VOTO CATÓLICO»?

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1. Os resultados estão lidos. As leituras apresentam-se feitas. E as ilações parecem tiradas. Não faltará dizer mais nada acerca das eleições?

Creio que valerá a pena alinhar uma breve reflexão acerca de um tópico que, uma vez mais, pairou em diversas instâncias. Trata-se daquilo a que (impropriamente) se chama voto católico.

Esta é, desde logo, uma expressão equívoca. Sugere uma frente unitária, homogénea quando é sabido que encontramos católicos em todos os quadrantes incluindo abstencionistas, votantes em branco e nulo.

Temos de partir do princípio de que tais opções são ditadas pela consciência. Algum estigma poderá ser lançado?

2. Ouvimos apelos à isenção dos responsáveis eclesiásticos. Em que consistirá tal isenção? Acima de tudo, na não intervenção pública em favor de um partido ou candidato.

Para lá disso, ninguém negará a um padre ou um bispo os mesmos direitos e deveres de um cidadão.

Como cidadão, fará as suas escolhas. Apenas se espera que não as publicite.

Penso que, mais que um preceito, estamos em presença de uma pura questão de bom senso.

As sociedades atingiram, felizmente, um patamar de autonomia e maturidade que dispensam pressões tutelares.

O problema ocorre quando, invocando uma isenção formal, se fazem apelos ao denominado voto católico.

Para já, é difícil (para não dizer impossível) tipificar cabalmente um voto católico. Tão complexo é o acto de votar e tão vasta é a condição de católico!

3. Não falta, porém, quem tente influenciar. Se, para lá das linhas, olharmos para a entrelinhas de alguns textos, dá para perceber que, subrepticiamente, a campanha é feita.

Neste caso, mais valia que as posições fossem tomadas às claras e não de modo enviesado.

Não se falando directamente em partidos nem em candidatos, apresentam-se uma série de considerandos cujo teor e objectivo qualquer pessoa entende.

Desta vez, não faltou até quem se abalançasse na defesa do voto em branco ou da abstenção. O pretexto é que não haveria nenhum candidato que defendesse os princípios católicos!

É claro que o ser católico nunca se suspende. Nem tampouco na mesa de voto.

Mas o discernimento pertence a cada um. Alguém poderá erigir-se em dono das opiniões ou em proprietário das consciências?

Acresce que tendo católico a ver com universal, não é curial que se parcialize essa identidade.

Habitualmente, existe uma sensibilidade para com os temas da moral. É certo que há doutrina clara quanto a ela. Mas porque é que não se verifica igual atenção à doutrina social?

Não falta quem lembre a doutrina da Igreja no que toca ao aborto ou ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quem alerta para a doutrina da mesma Igreja no que respeita à justiça e à opção preferencial pelos pobres? Porque é que uma é tão lembrada e a outra tão esquecida?

4. É importante que os católicos conheçam o pensamento da Igreja sobre cada tema.

Mas é igualmente fundamental que se respeite a consciência de cada um no seu discernimento e na sua decisão.

Aliás, é doutrina conhecida que ninguém pode reclamar para si o exclusivo da mensagem de Cristo.

Podemos não estar de acordo com determinada visão. Podemos até achar que ela não está em consonância com o Evangelho.

Mas temos de aceitar que, por muito que nos custe, outros poderão pensar de modo diferente.

A liberdade não é unívoca e há que respeitar as decisões de cada um. Não é a liberdade a grande oferta de Jesus Cristo?

E, depois, há que ter presente que as opções não são isentas de dramas.

Uma decisão tem mais de oblíquo do que de linear. Não pode haver complexos de superioridade nem presunções de tutela.

A consciência de cada um é (mesmo) um património sagrado.

In http://theosfera.blogs.sapo.pt/

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