quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cristão sem coragem é como comida sem sal

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1. Na mesa daquele café, falava-se da Igreja. Claro, ao melhor estilo do anticlericalismo primário dos portugueses. A Nádia, que acompanhara os pais, ouviu, ouviu e sentiu-se revoltada com tanta "patacoada". E pensava para os seus botões: "As pessoas inventam-nas dos pés à cabeça! Como é possível tanta superficialidade, tanta mentira, tanta ignorância, tanto prazer pelo maldizer?!"
Não aguentou mais nem quis aguentar. Apesar da revolta que a conversa lhe causara, procurou falar calmamente. Não lhe foi nada difícil desmontar a mentirada e a boatada que circulava por aquelas bocas como serpente ondulante pelo deserto.
Dos seus próprios pais recebeu um silêncio cobarde. Noutras pessoas viu um sorriso onde escorria cinismo. De alguns ouviu as frases feitas do costume: "Tu ainda és muito nova para te pronunciares..."; "Tu andas lá muito pela Igreja..."
Quando deixou a mesa do café, a Nádia sentia uma paz interior profunda, uma óptima sensação de bem-estar, sentia-se de bem com ela mesma. E vinha-lhe ao pensamento a oração de São Francisco:
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

2. Um grave problema numa paróquia. Era preciso que alguém fosse para tentar reestabelecer a harmonia quebrada. Mas o ambiente era vulcânico.
Vários sacerdotes foram convidados para desempenhar o papel de pacificadores. Uns por uma razão, outros por outra, todos se foram escusando.
Então o Vigário Geral disse: "Se ninguém quer ir vou eu. E se algo me acontecer, acontece no meu posto."
A recepção foi tudo menos digna. Impropérios, insultos, palavrões e mesmo uma ou outra tentativa de agressão. Chegaram ao ponto de lhe deitarem lixívia no cálice. Só que ele, precavido, apercebeu-se...
Um homem, na despedida, disse-lhe: "O senhor vai ganhar esta batalha. Sabe o motivo? A sua coragem!"

3. Era preciso restaurar aquela bela Igreja. Custos avultadíssimos. Entre as actividades previstas para arranjar a verba precisa, constava um peditório. As pessoas da Comissão agregando a si outras pessoas, dividiram-se em grupos e saíram.
A recepção não foi por aí além. Uns diziam que não tinham dinheiro, outros que a Igreja só sabe pedir, alguns nem a porta abriram. A decepção instala-se em alguns e a vontade de desistir parece contaminar a todos.
Ao fim da tarde, os grupos reúnem-se e partilham. Sente-se no ar o desânimo e a vontade de não voltar. Todos tinham combinado que não responderiam às provocações mesmo fossem de estalar o fígado. E cumpriram.
Um homem, ergue a sua voz e diz: "Vocês querem desistir? Pois eu não desisto, nem que vá sozinho! Sabem o que disse a um que veio com o palavreado do costume? Afirmei-lhe que a conversa foi para nós, mas que agora desse alguma coisa para as obras do restauro da Igreja. O homem caiu em si e até foi generoso.
E a firmeza daquele homem derreteu o gelo da desistência dos colegas. Todos continuaram.

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