sexta-feira, 9 de setembro de 2016

11 Setembro 2016 - 24º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Leituras: aqui

1. Não há duas sem três! Primeiro, é a dupla da ovelha perdida no deserto e da dracma perdida, dentro de casa. Depois, vem a história dos dois filhos perdidos, o mais novo, num país distante, e o mais velho, na própria casa do Pai. A tentação do ouvinte é achar graça a esta parábola, como se estivesse diante de uma história da carochinha. Mas não. Esta parábola não são três contos de fadas para nos embalar. São três imagens para nos provocar, para nos desconcertar, para nos virar o capacete e nos ajudar a conhecer o coração de Deus, que, em Jesus, nos revela o Seu rosto de misericórdia.
2. Nesta parábola, somos desafiados, antes de mais, pelas perguntas: “Quem de vós deixaria 99 ovelhas no deserto, sujeitas ao perigo, à fome e à morte, para ir à procura da que anda perdida”? Resposta: Ninguém! Sejamos sinceros. Façamos as contas, e no fim, a resposta não podia ser outra: “É mais ovelha menos ovelha. E as que tenho já me bastam”, pensaria qualquer negociante. Só um «tolinho» correria semelhante risco. Mas, na parábola, o pastor é a figura de Jesus, que não pode resignar-se ao facto, de que até uma única pessoa possa extraviar-se. Trata-se de um desejo irrefreável: nem sequer noventa e nove ovelhas podem impedir o Pastor e mantê-lo fechado no redil. E vem na mesma linha a outra pergunta: “Quem de vós, com cem euros na algibeira, se perdesse um cêntimo furado, se poria a gastar luz, a varrer a casa, até o encontrar”? A resposta será a mesma: Ninguém! Só uma «louca da casa» o podia fazer!
 3. E aqui está a primeira provocação: só Deus é capaz desta procura e desta loucura. Jesus revela um Deus, louco e perdido de amor por quem “não vale a pena”. Mas a segunda provocação talvez seja ainda mais desconcertante: é a grande alegria, depois do encontro. E todos somos chamados a entrar na festa do perdão: «alegrai-vos comigo» (Lc 15, 6.9.32). É a alegria do Pastor e a alegria do rebanho. Na perspetiva de Jesus, não há ovelhas perdidas definitivamente, mas tão só ovelhas que devem ser encontradas. Devemos compreender bem isto: para Deus, ninguém está definitivamente perdido.
4. Irmãos e irmãs: esta parábola tem muito a dizer-nos, porque, no rebanho da nossa comunidade há sempre alguém que falta, alguém que partiu e deixou um lugar vazio, nos bancos da Igreja, ou nos lugares de serviço. Às vezes, isto é desanimador, porque a certa altura, já não se trata de deixar 99 por um, mas de deixar um por 99. Parece uma perda inevitável, uma hemorragia, sem controlo. Neste contexto, corremos o perigo de nos fecharmos dentro de um redil, onde já não haverá o cheiro de ovelhas, mas o fedor típico de um lugar fechado! Não nos deixemos adoecer, fechados, no nosso pequeno mundo paroquial, afetados pelo cheiro a mofo, de um grupo fechado, sem impulso missionário.
5. Portanto, no início de um novo ano pastoral, depois do tempo tão dispersivo das férias, em que tantos partiram e não voltarão, esta parábola impele-nos a sair à procura, para empreender um caminho de busca e acolhimento, de regresso e reintegração, de perdão e alegria. Nenhum rebanho pode renunciar a um sequer dos seus irmãos! Encontrar quem está perdido é a alegria do Pastor, mas é também o júbilo de todo o rebanho! Afinal, todos nós somos ovelhas reencontradas e reunidas pela misericórdia do Senhor, chamadas a congregar juntamente, com Ele, o rebanho inteiro! Cada um de nós é essa ovelha que pode testemunhar: “alcancei misericórdia” (1 Tim 1,13) e dizer alto e bom som: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles” (1 Tim 1,15). Irmão, irmã: foste procurado e encontrado! Vai à procura do teu irmão. Porque onde estiver a ovelha perdida, aí mesmo estará o Pastor!
P. Amaro Gonçalo

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