quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Deixem-nos entrar!

A Europa está dividida sobre o que fazer em relação à crise dos refugiados que nos batem à porta a pedir uma oportunidade de vida. Dos refugiados que vêm de contextos de tal forma desesperados que estão dispostos a arriscar a vida só para tentar ter uma vida melhor.

Temos aqui vários dramas.

Em primeiro lugar há o drama dos que tentam fazer as viagens intermináveis por terra, ou mais curtas e letais por mar. Não é uma crise que se compreenda com números, é uma crise que se conta com vidas e histórias individuais. Cada refugiado que é retirado morto do Mediterrâneo ou do porão de um navio, é uma pessoa profundamente amada e desejada por Deus, uma pessoa com potencial para o bem e para o mal, para a grandeza; amada por um pai e por uma mãe, que ama profundamente os seus filhos, que brincou em criança, que correu e fez asneiras, que chorou um primeiro coração despedaçado. São homens e são mulheres e estão a morrer para tentar ter um pedaço desta vida que nós vivemos e que ainda nos atrevemos a dizer que é de crise.

Há ainda o drama dos países e das realidades de origem, que é um drama pintado em tons de guerra e de violência, razão da fuga.

Mas o drama que mais me aflige – já que os outros sempre os teremos connosco – é o drama de que nós somos personagens. Com estas vagas de pessoas a bater-nos à porta, a suplicar pelas suas vidas para entrar, que haja sequer um debate sobre como agir e se devemos abrir a porta ou não revela uma fraqueza moral da Europa de tal forma profunda que nos deve entristecer e chocar.

Deixem-me colocar isto na primeira pessoa, para não andar apenas pelo reino das teorias, que são tão fáceis… O meu avô inglês combateu na Segunda Guerra Mundial. Perdeu dois irmãos no conflito. Casou em Londres ao som de rockets V2 e teve o copo-de-água num hotel cuja parede tinha sido destruída na véspera.

O meu avô português era piloto da força aérea e durante a guerra foi para Inglaterra receber formação de jactos que Portugal ia comprar aos britânicos. Durante pelo menos uma das sessões de formação o instrutor inglês detectou aviões alemães e informou os seus formandos portugueses de que tinha de os atacar. Eles, contra todas as convenções e ordens, juntaram-se a ele.

Tenho como um dos maiores orgulhos do meu património familiar o facto de, numa altura em que a Europa se dividia entre o mais puro do mal e aqueles que resistiam, ambos os meus avôs não só estavam do lado certo como foram à luta. Ambos, certamente, agiram com base na sua educação e nos valores cristãos que sempre os animaram.

Eu sou também herdeiro desses valores. Num outro tempo, noutras circunstâncias, mas são valores que transpõem todos os tempos e todas as circunstâncias. A verdade é assim mesmo.

Portanto digo em nome próprio, a quem é de direita ou de esquerda, a quem é conservador ou liberal, a quem é ateu ou crente, a quem é católico ou protestante… Enquanto houver um homem ou mulher a bater desesperado à nossa porta e esta não se abrir, devíamos cobrir a cara de vergonha e lavar a boca antes de reivindicar uma cultura e valores cristãos.

Sim, eu ponho esta questão em termos religiosos porque é isso que sinto. Esta crise é uma prova ao nosso Cristianismo. E choca-me que aqueles que alertam para o perigo de uma “invasão” de estrangeiros para a cultura e civilização da Europa não percebam, pobres almas, que são eles mesmos o mais visível sinal da morte dessa mesma civilização.

Deixem-nos entrar.

Por amor do Santo Deus, do Senhor dos Céus e da Terra, do Cristo que foi refugiado no Egipto, deixem-nos entrar!

Ou então mantenham as portas fechadas, mas nesse caso retirem definitivamente os crucifixos das paredes, os nomes de santos às terras e às escolas e atirem-nos todos ao mar, porque definitivamente deixámos de os merecer.
Filipe d'Avillez, aqui

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