sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Nova Evangelização: É preciso «dedicação» para que a Igreja não perca credibilidade, diz bispo de Lamego

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O AMOR VERDADEIRO ESTÁ LÁ SEMPRE PRIMEIRO
“A Alegria do Evangelho”



«Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião»
(Isaías 52,7)
«A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes»
(Cântico dos Cânticos 2,8)


1. Vejo a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, a primeira e programática do seu pontificado (n.º 25), como uma torrente de «óleo de alegria» (Isaías 61,3) a inundar, lubrificar e tonificar todos os recantos de uma Igreja que se quer em «vestido de festa» (ainda Isaías 61,3), jubilosamente saindo de si mesma, das amarras do medo, do comodismo, da indiferença, do quietismo, de toda a rigidez autodefensiva, do telónio da administração seja do que for. É, na verdade, necessário e urgente passar da «simples administração» para um «estado permanente de missão» (n.º 25). Requer-se, portanto, uma nova cultura e postura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção. Deve notar-se que, nas comunidades cristãs primitivas, o termo «Evangelho» é um nome de ação e não de estado. Significa «anunciar a notícia feliz da Ressurreição de Jesus», pelo que não pode ser confundido com um livro colocado na estante que gera vidas colocadas na estante. «Evangelho» significa então «evangelização», e evangelização implica movimento e comunicação, e requer tempo, dedicação, formação, inteligência, entranhas, mãos e coração.




2. Da paleta de tintas do Papa Francisco sai uma Igreja pobre, leve e bela, com uma «tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra» (n.º 127). A esta Igreja bela não serve o hábito velho daquilo a que ele chama o «deveriaqueísmo», que somos nós cómoda e vaidosamente sentados e entretidos a discutir «o que se deveria fazer» (n.º 96). É o «excesso de diagnóstico» (n.º 50) ou o «excesso de meios, míngua de fins» (Edmund Pellegrino). Sim, este não é o tempo do «deveriaqueísmo», mas o tempo do «saiamos, saiamos» (n.º 49), o tempo de a Igreja inteira sair de si mesma, do seu estatismo autorreferencial. Este é o tempo da leveza e da agilidade do Evangelho, de a Igreja «primeirear» (n.º 24), levando a todos, sobretudo aos pobres, o anúncio do Evangelho, que é «a primeira caridade» (n.º 199; Novo Millennio Ineunte, n.º 50) e «o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira» (Redemptoris Missio, n.º 2). O ícone feliz desta maneira de viver bem pode ser «Nossa Senhora da prontidão, que sai “à pressa” (Lucas 1,39) da sua povoação para ir ajudar os outros» (n.º 288).


3. Se não sair ao encontro dos outros, sobretudo dos pobres, se não se lembrar dos pobres, se não os tiver sempre presentes e não nutrir por eles um carinho particular, a Igreja perde credibilidade e o seu critério-chave de autenticidade (n.º 195) e de autoridade. A autoridade na Igreja é sempre por transparência. Transparência de Cristo, deixar passar Cristo, «é Cristo que vive em mim» (Gálatas 2,20). «Nós só nos devíamos lembrar dos pobres», aí está a condição que rege a missão do Apóstolo Paulo (Gálatas 2,10), «o maior missionário de todos os tempos» (Bento XVI, Mensagem para o 45.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 2008) e «modelo de cada evangelizador» (Evangelii Nuntiandi, n.º 79). É bom que a Igreja viva em permanente sintonia com as frequências do Sermão da Montanha, em que os primeiros destinatários da felicidade são os «pobres de espírito» (Mateus 5,3), que são os que não têm espaço político, económico, social, educacional, cultural, humano: aqueles que não têm espaço vital, que não têm espaço nenhum, com quem ninguém conta, nem contam para ninguém. Para levar a todos e a todos envolver nesta onda de felicidade, é preciso uma Igreja feliz, liberta de todas as amarras, do formalismo e do calculismo da administração, da frieza da indiferença, do medo que tolhe os movimentos e leva ao pecado da estagnação e da auto-preservação, poço de águas inquinadas.


4. Porque o Papa apela ao uso de imagens para fazer passar a mensagem do Evangelho (n.º 157), enxerto aqui a bela interpretação que os targûmîm (paráfrases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos Números 21,16-18: «Foi então que Israel cantou este poema de louvor, no momento em que voltou o poço que lhes tinha sido dado por mérito de Miriam, depois de ter estado escondido: “Sobe, poço! Sobe, poço!”, assim cantavam. E ele subia. O poço que tinham escavado os patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob, os príncipes de outrora, os chefes do povo, Moisés e Aarão, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, pôs-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o território de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um à entrada da sua tenda». Um poço que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que dá de beber ao povo, imagem próxima das pessoas-cântaro de que fala o Papa Francisco (n.º 86). Bela metáfora que traduz bem Jesus e que pode e deve traduzir também a Igreja na sua ação de ir ao encontro das pessoas para saciar a sua sede mais profunda.


5. A Igreja de Cristo é formada por «discípulos missionários», e não por «discípulos e missionários» (n.º 120), como se «missionário» pudesse ser apenas um ornamento ou um acessório a apor ao «discípulo» (n.º 273). Não é um acessório mais ou menos facultativo, que se pode ter ou não ter, usar ou não usar. É por natureza que a Igreja é missionária (Ad Gentes, n.º 2), e «evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda» (Evangelii Nuntiandi, n.º 14). Neste sentido, escreve bem o Papa Francisco, «eu sou uma missão nesta terra» (n.º 273). Eu sou, tu és, nós somos. Sim, este é o tempo de tudo o que é Igreja transbordar de beleza (n.º 142), e fecundar e contagiar de alegria a inteira paisagem humana e da criação em que por graça estamos inseridos. Este é o tempo de sermos todos contemplativos de Deus e contemplativos do rosto dorido e belo dos nossos irmãos (n.os 154.199.264). Contemplativos e transparentes, habitados pelo mistério de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus (1 Coríntios 4,1; Lumen Gentium, n.º 21).

D. António Couto

Bispo de Lamego
(Publicação conjunta da Missão Press)
Foto: DR

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