Quem de nós não gostaria de ser feliz? Não apenas ter alguns momentos felizes, mas sentir que a vida vale a pena, que não estamos aqui por acaso, que o melhor da nossa existência ainda está para vir?
É precisamente de felicidade que Jesus nos fala hoje. Abre a boca e diz: «Felizes… felizes… felizes…»
E é curioso: Jesus não começa por nos dar ordens, nem por nos apresentar uma lista de obrigações. Começa por nos falar de felicidade. Como se nos dissesse: «Quero que a vossa vida seja bela. Quero que descubrais a alegria para a qual vos criei».
Mas há uma surpresa. Jesus chama felizes aos pobres em espírito, aos mansos, aos misericordiosos, aos que têm fome e sede de justiça, aos que trabalham pela paz. Não fala de pessoas que vivem para si, que precisam de vencer sempre ou de estar acima dos outros. Fala de pessoas cujo coração tem espaço para Deus e para os outros.
E aqui começa a nossa festa.
Hoje celebramos Todos os Santos. Celebramos uma multidão imensa de homens e mulheres que descobriram que vale a pena viver com Deus. Não foram pessoas que passaram pela vida a cumprir regras, com medo de falhar. Foram pessoas que encontraram em Cristo uma maneira nova de viver, de olhar para os outros, de trabalhar, de amar e de construir o mundo.
A santidade não tira alegria à vida. Dá-lhe uma alegria mais funda.
Um santo pode ser uma pessoa que trabalha com entusiasmo, que gosta de estar com os amigos, que aprecia a beleza da natureza, que sabe rir e fazer os outros rir. Pode ser alguém que se entrega apaixonadamente à sua profissão, que educa os filhos com amor, que serve a comunidade com generosidade. A santidade não nos torna menos humanos. Torna-nos mais disponíveis para viver plenamente aquilo que somos.
E há uma coisa importante: não precisamos de esperar que a vida corra mal para procurar Deus.
Precisamos d'Ele quando temos um problema, sim. Mas também quando tudo corre bem. Quando nasce uma criança, quando celebramos um aniversário, quando contemplamos um pôr do sol, quando conseguimos realizar um sonho, quando sentimos a alegria de estar com quem amamos. Também nesses momentos precisamos de Deus, não para nos estragar a festa, mas para nos ajudar a reconhecer a beleza da vida como um dom.
Quem ama não procura a pessoa amada apenas nos momentos difíceis. Procura-a porque a sua presença faz bem, porque a vida ganha outro sabor quando é partilhada. Também a nossa relação com Deus é assim: não é apenas um recurso para as horas de aflição. É uma relação que dá unidade e profundidade a toda a nossa existência.
É isso que vemos nos santos. Deus não foi para eles um último recurso. Foi o centro da vida, a fonte da sua liberdade, a razão da sua esperança e a força do seu amor.
E não pensemos que a santidade pertence apenas às figuras extraordinárias que conhecemos pelos livros. Há uma santidade discreta, que nunca chega aos altares da terra: a de quem vive com retidão, cumpre a sua palavra, cuida dos seus, faz bem o seu trabalho, acolhe quem chega e não precisa de ser aplaudido para fazer o bem.
Talvez tenhamos conhecido pessoas assim. Talvez algumas estejam hoje no nosso pensamento. A sua vida mostrou-nos que é possível viver de outra maneira.
Mas a festa de hoje vai ainda mais longe. Não celebramos apenas o bem que os santos fizeram na terra. Celebramos também a meta a que chegaram: a vida plena em Deus.
A primeira leitura mostra-nos uma multidão imensa, de todas as nações, povos e línguas, diante de Deus. Que imagem extraordinária! Tanta gente diferente, tantas histórias, tantos caminhos, reunidos numa alegria que não acaba.
É para isso que caminhamos. O Céu não é um lugar aborrecido onde ficamos parados a olhar para o alto. É a plenitude da vida com Deus, a alegria de O conhecer sem limites, de O amar sem reservas e de viver numa comunhão perfeita com todos os que Ele reuniu junto de Si. É o encontro com Aquele de quem recebemos a vida e em quem o nosso coração encontra a sua plenitude.
Não sabemos descrever o Céu. Mas sabemos que Deus nos promete muito mais do que conseguimos imaginar. São João diz-nos, na segunda leitura, que ainda não se manifestou plenamente aquilo que havemos de ser. A nossa vida tem diante de si um horizonte que ultrapassa tudo o que vemos e conhecemos.
E é por isso que esta solenidade também nos reúne junto dos túmulos dos nossos familiares e amigos.
Num cemitério, cada nome nos recorda uma vida concreta: alguém que amámos, com quem conversámos, de quem recebemos tanto e a quem demos alguma coisa de nós. Mas hoje não queremos olhar apenas para trás. Queremos olhar para a frente, iluminados pela promessa de Cristo.
A fé cristã não nos diz que a morte não importa. Diz-nos que ela não tem a última palavra. Jesus ressuscitou, e é nesta certeza que entregamos a Deus aqueles que partiram antes de nós.
Rezamos por eles, agradecemos a sua vida e confiamos na misericórdia de Deus. E, ao fazê-lo, lembramo-nos de que a nossa própria vida também está a caminho de um encontro. Não estamos destinados ao nada, mas à plenitude do amor de Deus.
Por isso, a solenidade de Todos os Santos não é uma festa triste. Mesmo junto dos túmulos, é uma festa de esperança. Recordamos os que partiram, mas celebramos sobretudo aquilo que Deus prepara para aqueles que n'Ele confiam.
Irmãos e irmãs, há uma pergunta que fica para cada um de nós: e se levássemos a sério o convite de Jesus à felicidade?
E se deixássemos de pensar na santidade como uma coisa distante, reservada a pessoas especiais? E se começássemos a descobrir que Deus nos chama a viver com mais verdade, mais liberdade, mais generosidade e mais alegria?
Não temos de fazer todos as mesmas coisas. Temos, sim, de deixar que Cristo transforme a maneira como vivemos. Para uns, isso significará dedicar mais tempo à família; para outros, trabalhar com mais honestidade, recuperar a oração, servir melhor a comunidade ou ter a coragem de dar um passo que há muito adiam.
Não por medo de Deus. Não para comprar um lugar no Céu. Mas porque somos amados e queremos responder a esse amor com a nossa vida.
Hoje, os santos lembram-nos que esse caminho é possível. E a multidão que já está junto de Deus lembra-nos que a nossa história não acaba nas pequenas alegrias que agora conhecemos. Somos chamados a uma alegria maior, a uma vida que não termina, a uma comunhão que nenhuma despedida poderá destruir.
Peçamos a graça de viver com os olhos postos nessa meta e com os pés bem assentes na terra. Que saibamos agradecer a vida, desfrutar do bem que recebemos, fazer o bem que está ao nosso alcance e caminhar com Cristo, na certeza de que Deus nos espera.
Porque ser santo é aprender, desde já, a viver com Deus. E o Céu será a alegria de nunca mais vivermos sem Ele.
Ámen.




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