Fala-se muito dos jovens — dos seus desafios, fragilidades e necessidades. E é verdade que crescer no mundo atual não é tarefa fácil. No entanto, há um risco subtil, mas real: o de olhar para a juventude como se fosse apenas um grupo a proteger, quase a “colocar no andor”, esperando pouco dela e exigindo ainda menos.
Ora, a juventude não precisa de ser idealizada nem desculpada — precisa de ser chamada.
Os jovens de hoje têm qualidades inegáveis: criatividade, sentido crítico, sensibilidade às injustiças e uma grande capacidade de adaptação. Mas, como qualquer geração, também enfrentam limites: alguma dificuldade na perseverança, tendência para o imediatismo e, por vezes, menor disponibilidade para o esforço e para causas que exigem continuidade e sacrifício. Vivendo numa cultura fortemente materializada, onde o conforto e o sucesso rápido são constantemente valorizados, torna-se mais difícil cultivar ideais que peçam entrega, renúncia e fidelidade.
Talvez por contraste, recordamos épocas em que a juventude se mobilizava mais facilmente por grandes causas. Hoje, não faltam motivos para agir — falta, muitas vezes, a disposição para ir até ao fim, para assumir compromissos duradouros e para transformar convicções em ações concretas.
E é precisamente aqui que entra a responsabilidade dos próprios jovens.
Crescer implica esforço. Implica saber ouvir, aprender, aceitar correção e assumir consequências. Implica perceber que a liberdade não é fazer tudo o que apetece, mas escolher o bem — mesmo quando custa.
Por isso, não basta perguntar o que a Igreja, a sociedade ou a família podem fazer pelos jovens. É igualmente necessário perguntar: que jovens queremos ser? Que lugar queremos ocupar? Que contributo estamos dispostos a dar?
A família tem aqui um papel absolutamente decisivo, especialmente na formação cristã. Não pode delegar apenas na catequese ou na paróquia aquilo que lhe pertence por natureza. É em casa que a fé deve ganhar raízes: no exemplo da oração, na vivência dos valores evangélicos, na coerência entre o que se diz e o que se vive. Quando essa base falta, torna-se muito mais difícil ao jovem reconhecer o valor da fé e integrá-la na sua vida. Educar cristãmente não é impor, mas propor com verdade, viver com autenticidade e acompanhar com perseverança.
A Igreja não pode limitar-se a entreter ou agradar. É chamada a propor exigência, caminho, verdade. A fé cristã nunca foi um facilitismo — é um convite a uma vida com sentido, que pede compromisso e coerência. Os jovens não precisam de uma Igreja que os “segure”, mas de uma Igreja que os desafie e confie neles.
A sociedade deve oferecer oportunidades, sim — mas também deve exigir responsabilidade. Uma cultura que evita o esforço, que desculpa tudo e que transforma direitos em absolutos, acaba por fragilizar aqueles que pretende proteger.
Mas, no centro de tudo, está o jovem como sujeito ativo. Não como espetador, não como vítima permanente, mas como alguém capaz de decidir, de falhar, de recomeçar e de crescer.
A juventude não precisa de pedestal — precisa de chão. Precisa de confiança, mas também de verdade. Só assim poderá tornar-se aquilo que é chamada a ser: uma geração que não apenas recebe o mundo, mas que o transforma.
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