sexta-feira, 6 de março de 2026

8 de Março, 2026 - 03º Domingo da Quaresma - Ano A

Leituras: aqui


O povo de Israel, à semelhança do que acontece connosco hoje, impacientou-se com Deus e revoltou-se contra Moisés, porque se viam apertados pela sede, no deserto. A samaritana, do Evangelho, à beira do poço de Jacob sentiu sede da água de que Jesus lhe falou.

Nós, hoje, sentimos a mesma sede daquelas realidades que só Deus nos pode saciar. Por isso, o terceiro mandamento da Igreja manda que se comungue, pelo menos, na Páscoa da Ressurreição, para sentirmos a saciedade do espírito.

A comunhão eucarística sustenta e reforça a comunhão de uns com os outros, enquanto irmãos que somos. Dom António Couto afirma que a referência que Jesus faz ao Templo como Casa do Pai é “uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus, o Filho. A extensão deste espaço chama-se comunhão” (nº 7). 

 Homilia

Irmãos e irmãs,

O povo de Israel tem sede no deserto. Mas o problema não é apenas a sede física. O problema é a desconfiança. “Está o Senhor no meio de nós ou não?”

Reparem bem: Deus tinha libertado aquele povo da escravidão. Tinha aberto o mar. Tinha conduzido o caminho. Mas bastou a sede para esquecerem tudo.

E nós?
Quantas vezes Deus já nos sustentou? Quantas vezes já nos levantou? Quantas vezes já nos perdoou?
E, no entanto, basta uma dificuldade para começarmos a duvidar.

No Evangelho (Evangelho segundo São João 4), encontramos uma mulher com outra sede. Vai ao poço ao meio-dia — hora de calor intenso. Talvez para evitar olhares. Talvez para evitar comentários. Vai com a sua história ferida.

Jesus começa por lhe pedir água. Deus faz-Se necessitado. Isto é impressionante: Deus pede. Deus aproxima-Se. Deus não acusa — dialoga.

Mas depois Jesus toca no ponto sensível da vida dela. Não para humilhar. Para libertar.

E aqui começa a provocação para nós:

  • Qual é a nossa sede verdadeira?
  • O que é que andamos a procurar todos os dias?
  • O que é que realmente nos move?

Dizemos que acreditamos em Deus. Mas, na prática, onde procuramos segurança? No dinheiro? Na opinião dos outros? No sucesso dos filhos? Na estabilidade? Nas redes sociais?

Quando rebenta uma guerra no mundo e sentimos medo, em quem confiamos?
Quando a vida nos foge ao controlo, onde nos apoiamos?

Jesus fala de uma “água viva”. Não é emoção passageira. Não é entusiasmo de um momento. É uma fonte interior. É vida nova que nasce dentro de nós.

Mas atenção: para receber essa água, é preciso reconhecer a sede.
E talvez o maior problema do nosso tempo seja este: estamos desidratados espiritualmente… mas já nos habituámos.

Habitámo-nos a comungar raramente.
Habitámo-nos a rezar pouco.
Habitámo-nos a viver a fé como tradição e não como relação.

E depois estranhamos o vazio.

A Quaresma é tempo de verdade. Não é tempo de fachada religiosa. É tempo de ir ao poço e deixar que Jesus nos fale do coração.

A samaritana podia ter ido embora. Mas ficou. Escutou. Deixou-se tocar. E depois tornou-se missionária.

E nós?
Vamos continuar a viver uma fé mínima — “cumprir o preceito da Páscoa” — ou vamos redescobrir a Eucaristia como fonte real da nossa vida?

Como recorda D. António Couto, o verdadeiro templo não é um espaço fechado; é a comunidade que vive como filhos e irmãos. Se a nossa participação na Eucaristia não nos torna mais fraternos, então ainda não bebemos verdadeiramente da Água Viva.

Talvez hoje Jesus esteja a fazer-nos uma pergunta simples e exigente:

“Queres continuar a viver com sede… ou queres mesmo beber?”

Não tenhamos medo de dizer:
“Senhor, dá-me dessa água.”

Mas saibamos que essa água transforma.
E quem bebe desta água já não vive igual.

Amém.



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