O povo de Israel, à semelhança do que acontece connosco hoje, impacientou-se com Deus e revoltou-se contra Moisés, porque se viam apertados pela sede, no deserto. A samaritana, do Evangelho, à beira do poço de Jacob sentiu sede da água de que Jesus lhe falou.
Nós,
hoje, sentimos a mesma sede daquelas realidades que só Deus nos pode saciar.
Por isso, o terceiro mandamento da Igreja manda que se comungue, pelo menos, na
Páscoa da Ressurreição, para sentirmos a saciedade do espírito.
A comunhão
eucarística sustenta e reforça a comunhão de uns com os outros, enquanto irmãos
que somos. Dom António Couto afirma que a referência que Jesus faz ao Templo
como Casa do Pai é “uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço
local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e
fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus, o Filho. A extensão deste
espaço chama-se comunhão” (nº 7).
Homilia
Irmãos e
irmãs,
O povo de
Israel tem sede no deserto. Mas o problema não é apenas a sede física. O
problema é a desconfiança. “Está o Senhor no meio de nós ou não?”
Reparem bem:
Deus tinha libertado aquele povo da escravidão. Tinha aberto o mar. Tinha
conduzido o caminho. Mas bastou a sede para esquecerem tudo.
E nós?
Quantas vezes Deus já nos sustentou? Quantas vezes já nos levantou? Quantas
vezes já nos perdoou?
E, no entanto, basta uma dificuldade para começarmos a duvidar.
No Evangelho
(Evangelho segundo São João 4), encontramos uma mulher com outra sede. Vai ao
poço ao meio-dia — hora de calor intenso. Talvez para evitar olhares. Talvez
para evitar comentários. Vai com a sua história ferida.
Jesus começa
por lhe pedir água. Deus faz-Se necessitado. Isto é impressionante: Deus pede.
Deus aproxima-Se. Deus não acusa — dialoga.
Mas depois
Jesus toca no ponto sensível da vida dela. Não para humilhar. Para libertar.
E aqui
começa a provocação para nós:
- Qual é a nossa sede verdadeira?
- O que é que andamos a procurar
todos os dias?
- O que é que realmente nos move?
Dizemos que
acreditamos em Deus. Mas, na prática, onde procuramos segurança? No dinheiro?
Na opinião dos outros? No sucesso dos filhos? Na estabilidade? Nas redes
sociais?
Quando
rebenta uma guerra no mundo e sentimos medo, em quem confiamos?
Quando a vida nos foge ao controlo, onde nos apoiamos?
Jesus fala
de uma “água viva”. Não é emoção passageira. Não é entusiasmo de um momento. É
uma fonte interior. É vida nova que nasce dentro de nós.
Mas atenção:
para receber essa água, é preciso reconhecer a sede.
E talvez o maior problema do nosso tempo seja este: estamos desidratados
espiritualmente… mas já nos habituámos.
Habitámo-nos
a comungar raramente.
Habitámo-nos a rezar pouco.
Habitámo-nos a viver a fé como tradição e não como relação.
E depois
estranhamos o vazio.
A Quaresma é
tempo de verdade. Não é tempo de fachada religiosa. É tempo de ir ao poço e
deixar que Jesus nos fale do coração.
A samaritana
podia ter ido embora. Mas ficou. Escutou. Deixou-se tocar. E depois tornou-se
missionária.
E nós?
Vamos continuar a viver uma fé mínima — “cumprir o preceito da Páscoa” — ou
vamos redescobrir a Eucaristia como fonte real da nossa vida?
Como recorda
D. António Couto, o verdadeiro templo não é um espaço fechado; é a comunidade
que vive como filhos e irmãos. Se a nossa participação na Eucaristia não nos
torna mais fraternos, então ainda não bebemos verdadeiramente da Água Viva.
Talvez hoje
Jesus esteja a fazer-nos uma pergunta simples e exigente:
“Queres
continuar a viver com sede… ou queres mesmo beber?”
Não tenhamos
medo de dizer:
“Senhor, dá-me dessa água.”
Mas saibamos
que essa água transforma.
E quem bebe desta água já não vive igual.
Amém.
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