Quarta-feira de Cinzas
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje começamos a Quaresma. E começamos com um gesto simples e forte: cinza na cabeça.
Cinza que nos lembra uma verdade essencial: “Tu és pó e ao pó hás de voltar.”
Não para nos humilhar, mas para nos situar. Não para nos entristecer, mas para nos despertar.
A Palavra de Deus que escutámos ilumina este início.
O profeta Joel faz-nos um apelo claro e urgente:
“Convertei-vos a Mim de todo o coração.”
Não diz: mudai algumas coisas.
Não diz: fazei pequenos ajustes.
Diz: de todo o coração.
A Quaresma é isso: tempo de voltar o coração para Deus.
Não apenas práticas exteriores, mas uma transformação interior.
São Paulo, na segunda leitura, insiste:
“Reconciliai-vos com Deus.”
É como se dissesse: não adiem. Não deixem para depois.
Este é o tempo favorável. Este é o dia da salvação.
E no Evangelho, Jesus aponta-nos três caminhos muito concretos:
a esmola, a oração e o jejum.
Mas acrescenta algo essencial:
“O teu Pai, que vê no segredo, te dará a recompensa.”
Não é teatro.
Não é aparência.
É verdade de vida.
O sentido da Quaresma
A Quaresma é caminho.
Caminho de conversão pessoal e espiritual.
Caminho que percorremos juntos, como comunidade.
Cada domingo será uma etapa.
E este ano somos convidados a apoiar-nos em três pilares muito concretos:
-
As leituras da Eucaristia de cada domingo –
A Palavra será o nosso mapa. Se a escutarmos com atenção, ela moldará o nosso coração. -
Os cinco mandamentos da Igreja –
Tão simples, tão esquecidos por alguns…
Eles não são um peso, mas um mínimo necessário para manter viva a nossa pertença e comunhão eclesial. -
A carta pastoral do nosso Bispo –
Um convite a construirmos uma Igreja diocesana viva, unida, em permanente dedicação.
Neste ano especial em que olhamos, de passagem mas com gratidão, para a nossa Igreja Mãe, que celebra 250 anos de dedicação, somos chamados a recordar que a Igreja não é apenas pedra antiga.
É povo vivo.
Somos nós.
Pedras vivas chamadas à santidade.
O altar da caridade
Nesta comunidade temos um sinal muito bonito:
a caixa da renúncia quaresmal, colocada junto do altar.
Chamamos-lhe o altar da caridade.
Que imagem tão forte!
Do altar recebemos Cristo.
E ao lado do altar aprendemos a oferecê-Lo aos irmãos.
A renúncia quaresmal não é apenas “deixar de comer qualquer coisa”.
É transformar o que poupamos em gesto concreto de amor.
É jejum que se faz partilha.
É oração que se faz solidariedade.
É conversão que se faz caridade.
Quando colocarmos a nossa oferta naquela caixa, que não seja um gesto automático.
Que seja uma decisão do coração:
“Senhor, quero amar mais. Quero pensar menos em mim e mais nos outros.”
Rasgar o coração
O profeta dizia:
“Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes.”
Hoje recebemos cinza na cabeça.
Mas o que Deus deseja é que o nosso coração se abra.
Que deixemos cair o orgulho.
Que perdoemos.
Que nos confessemos.
Que regressemos à Missa dominical com mais fidelidade.
Que levemos a sério os mandamentos da Igreja.
Que escutemos verdadeiramente a Palavra.
A Quaresma não é tempo triste.
É tempo exigente, sim.
Mas profundamente esperançoso.
Porque o nosso Deus — como dizia Joel —
é clemente e compassivo, paciente e cheio de misericórdia.
Irmãos, ao aproximarmo-nos para receber as cinzas, façamos uma oração simples:
“Senhor, converte-me.
Converte o meu coração.
Ensina-me a rezar melhor, a jejuar com sentido, a amar com generosidade.
Que esta Quaresma me aproxime mais de Ti e dos meus irmãos.”
E que, caminhando domingo após domingo, sustentados pela Palavra, pelos ensinamentos da Igreja e pela orientação do nosso Bispo, cheguemos à Páscoa renovados.
Que esta cinza seja início de vida nova.
Que este tempo seja verdadeiro.
Que o nosso coração volte a Deus.
Ámen.
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