Leituras: aqui
«Aí vem o esposo! Ide
ao seu encontro!»
Irmãos e irmãs:
O Evangelho
apresenta-nos dez jovens que aguardam a chegada do esposo para a festa de
casamento. Todas levam lâmpadas, mas nem todas levam azeite suficiente. O
esposo demora, a noite avança e, quando chega o momento, cinco estão preparadas
e cinco ficam de fora.
A questão central da
parábola não é o sono das jovens, porque todas adormeceram. É a falta de
preparação daquelas que não levaram azeite. Jesus deixa-nos um aviso: não
podemos viver de qualquer maneira, adiando continuamente o que é essencial. Há
coisas na vida que não se improvisam à última hora.
Mas esta parábola não
fala apenas da nossa preparação para o encontro definitivo com Deus. Fala
também da maneira como vivemos hoje, das nossas escolhas, das nossas
prioridades e da sociedade que estamos a construir.
A primeira leitura, do
Livro da Sabedoria, diz-nos que a Sabedoria se deixa encontrar por aqueles que
a procuram. E o salmo coloca-nos nos lábios uma expressão muito bela: «A minha
alma tem sede de Vós, meu Deus». Ora, talvez uma das grandes doenças do nosso
tempo seja precisamente esta: perdemos a sede do essencial!
Vivemos rodeados de
coisas, de solicitações, de informações, de imagens e de distrações. Passamos
horas agarrados aos telemóveis, preocupamo-nos com a aparência, com o consumo,
com o que os outros pensam de nós, com as novidades e com tantas coisas que,
afinal, pouco acrescentam à nossa vida. Temos cada vez mais meios para
comunicar, mas nem sempre mais disponibilidade para escutar; temos cada vez
mais possibilidades de entretenimento, mas nem sempre sabemos encontrar sentido
para a vida.
Corremos muito, mas
nem sempre sabemos para onde vamos. Preocupamo-nos com tantas coisas
secundárias e deixamos para depois as perguntas fundamentais: Que sentido tem a
minha vida? Que lugar ocupa Deus nas minhas escolhas? Que estou a fazer pelos
outros? Que mundo estou a ajudar a construir?
É neste contexto que
Jesus nos diz: «Vigiai!» Não vivais distraídos! Não deixeis apagar a lâmpada da
vossa vida!
E quando olhamos à
nossa volta, encontramos razões muito sérias para esta vigilância.
Há pessoas a
manifestar-se, a sair à rua, a protestar porque sentem que não são ouvidas. Há
pessoas a viver sem uma casa, sem condições mínimas de dignidade. Há jovens que
trabalham, mas não conseguem arrendar uma habitação; famílias que fazem contas
até ao último cêntimo porque a vida está cada vez mais cara; idosos que vivem
com pensões insuficientes. Imigrantes a viver em situações degradantes e
privados da mais elementar justiça e dignidade
Há também uma
sociedade marcada por tensões, conflitos e confrontos. Vemos pessoas
reprimidas, forças policiais chamadas a intervir, políticos que gastam tantas
energias em guerras entre si, enquanto problemas fundamentais continuam sem
resposta.
Não podemos olhar para
esta realidade como se não fosse connosco. Não podemos habituar-nos a ver
pessoas a dormir na rua, famílias sem condições de vida, jovens sem esperança
de construir o seu futuro, crianças superprotegidas ou criadas “ao Deus dará” e
idosos entregues à sua sorte.
É aqui que a Palavra
de Deus tem de iluminar a nossa consciência.
Que espécie de
sabedoria é a nossa quando conseguimos desenvolver tanta tecnologia, produzir
tanta riqueza e, ao mesmo tempo, não conseguimos garantir condições dignas de
vida a tantas pessoas?
Que espécie de
sociedade estamos a construir quando o acesso a uma casa se transforma num
luxo, quando o trabalho nem sempre permite viver com dignidade e quando a
preocupação com os mais frágeis parece ficar tantas vezes para segundo plano?
A parábola das virgens
prudentes e imprudentes também nos interpela enquanto sociedade. Porque o
azeite que falta não é apenas uma questão individual. Falta-nos, tantas vezes,
a sabedoria para distinguir o essencial do acessório, a capacidade de olhar
para o futuro e a responsabilidade de preparar um mundo mais justo.
Não basta ter lâmpadas
acesas, fazer discursos, anunciar promessas ou proclamar grandes princípios. É
preciso que haja azeite, isto é, obras, decisões e compromissos que deem
consistência às palavras.
E nós, cristãos, não
podemos ficar à margem destas preocupações. A fé não nos torna indiferentes aos
problemas do mundo. Pelo contrário, torna-nos mais responsáveis. Não podemos
celebrar a Eucaristia e esquecer quem tem fome; falar de fraternidade e ignorar
quem não tem casa; rezar pela paz e alimentar divisões; falar de dignidade
humana e permanecer indiferentes à dignidade ferida de tantos irmãos.
São Paulo, na segunda
leitura, fala-nos da esperança que nasce da morte e ressurreição de Jesus. Não
somos pessoas sem futuro, nem estamos condenados ao pessimismo. Mas a esperança
cristã não é cruzar os braços à espera de que Deus resolva tudo. É acreditar
que vale a pena trabalhar, lutar pelo bem, defender a dignidade humana e
construir um mundo mais fraterno, porque Cristo venceu a morte.
Neste domingo termina
também a Semana de Oração pelos Seminários. O lema proposto pelos nossos
bispos, «Comunidade que reza, Seminário que floresce», recorda-nos que as
vocações são responsabilidade de toda a comunidade cristã. Precisamos de jovens
que descubram a alegria de entregar a vida ao Evangelho e de sacerdotes que
sejam homens de Deus, próximos das pessoas, atentos às suas dores e
comprometidos com a construção de uma sociedade mais humana.
Irmãos e irmãs:
Talvez a pergunta mais
importante deste domingo seja esta: onde estamos a gastar o nosso
azeite?
Naquilo que é
passageiro e superficial ou naquilo que verdadeiramente dá sentido à vida? Na
crítica fácil ou no compromisso? Na indiferença ou na solidariedade? Na
preocupação exclusiva com os nossos interesses ou na construção do bem comum?
Não deixemos que a
nossa vida se encha de coisas e fique vazia do essencial. Não deixemos que a
nossa fé se reduza a palavras e celebrações sem consequências na vida.
Peçamos ao Senhor a
sabedoria de que fala a primeira leitura, a esperança que São Paulo anuncia e a
vigilância a que Jesus nos convida.
E que, quando ouvirmos
o grito «Aí vem o esposo!», não tenhamos apenas uma lâmpada nas mãos, mas uma
vida cheia de fé, de justiça, de solidariedade e de amor.
Porque uma Igreja com
as lâmpadas acesas tem de ser também uma Igreja capaz de iluminar as noites dos
homens e das mulheres do nosso tempo.
Ámen.

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