sexta-feira, 6 de novembro de 2026

8 de Novembro, 2026 - 32º Domingo do Tempo Comum - Ano A

 

Leituras: aqui

«Aí vem o esposo! Ide ao seu encontro!»

Irmãos e irmãs:

O Evangelho apresenta-nos dez jovens que aguardam a chegada do esposo para a festa de casamento. Todas levam lâmpadas, mas nem todas levam azeite suficiente. O esposo demora, a noite avança e, quando chega o momento, cinco estão preparadas e cinco ficam de fora.

A questão central da parábola não é o sono das jovens, porque todas adormeceram. É a falta de preparação daquelas que não levaram azeite. Jesus deixa-nos um aviso: não podemos viver de qualquer maneira, adiando continuamente o que é essencial. Há coisas na vida que não se improvisam à última hora.

Mas esta parábola não fala apenas da nossa preparação para o encontro definitivo com Deus. Fala também da maneira como vivemos hoje, das nossas escolhas, das nossas prioridades e da sociedade que estamos a construir.

A primeira leitura, do Livro da Sabedoria, diz-nos que a Sabedoria se deixa encontrar por aqueles que a procuram. E o salmo coloca-nos nos lábios uma expressão muito bela: «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus». Ora, talvez uma das grandes doenças do nosso tempo seja precisamente esta: perdemos a sede do essencial!

Vivemos rodeados de coisas, de solicitações, de informações, de imagens e de distrações. Passamos horas agarrados aos telemóveis, preocupamo-nos com a aparência, com o consumo, com o que os outros pensam de nós, com as novidades e com tantas coisas que, afinal, pouco acrescentam à nossa vida. Temos cada vez mais meios para comunicar, mas nem sempre mais disponibilidade para escutar; temos cada vez mais possibilidades de entretenimento, mas nem sempre sabemos encontrar sentido para a vida.

Corremos muito, mas nem sempre sabemos para onde vamos. Preocupamo-nos com tantas coisas secundárias e deixamos para depois as perguntas fundamentais: Que sentido tem a minha vida? Que lugar ocupa Deus nas minhas escolhas? Que estou a fazer pelos outros? Que mundo estou a ajudar a construir?

É neste contexto que Jesus nos diz: «Vigiai!» Não vivais distraídos! Não deixeis apagar a lâmpada da vossa vida!

E quando olhamos à nossa volta, encontramos razões muito sérias para esta vigilância.

Há pessoas a manifestar-se, a sair à rua, a protestar porque sentem que não são ouvidas. Há pessoas a viver sem uma casa, sem condições mínimas de dignidade. Há jovens que trabalham, mas não conseguem arrendar uma habitação; famílias que fazem contas até ao último cêntimo porque a vida está cada vez mais cara; idosos que vivem com pensões insuficientes. Imigrantes a viver em situações degradantes e privados da mais elementar justiça e dignidade

Há também uma sociedade marcada por tensões, conflitos e confrontos. Vemos pessoas reprimidas, forças policiais chamadas a intervir, políticos que gastam tantas energias em guerras entre si, enquanto problemas fundamentais continuam sem resposta.

Não podemos olhar para esta realidade como se não fosse connosco. Não podemos habituar-nos a ver pessoas a dormir na rua, famílias sem condições de vida, jovens sem esperança de construir o seu futuro, crianças superprotegidas ou criadas “ao Deus dará” e idosos entregues à sua sorte.

É aqui que a Palavra de Deus tem de iluminar a nossa consciência.

Que espécie de sabedoria é a nossa quando conseguimos desenvolver tanta tecnologia, produzir tanta riqueza e, ao mesmo tempo, não conseguimos garantir condições dignas de vida a tantas pessoas?

Que espécie de sociedade estamos a construir quando o acesso a uma casa se transforma num luxo, quando o trabalho nem sempre permite viver com dignidade e quando a preocupação com os mais frágeis parece ficar tantas vezes para segundo plano?

A parábola das virgens prudentes e imprudentes também nos interpela enquanto sociedade. Porque o azeite que falta não é apenas uma questão individual. Falta-nos, tantas vezes, a sabedoria para distinguir o essencial do acessório, a capacidade de olhar para o futuro e a responsabilidade de preparar um mundo mais justo.

Não basta ter lâmpadas acesas, fazer discursos, anunciar promessas ou proclamar grandes princípios. É preciso que haja azeite, isto é, obras, decisões e compromissos que deem consistência às palavras.

E nós, cristãos, não podemos ficar à margem destas preocupações. A fé não nos torna indiferentes aos problemas do mundo. Pelo contrário, torna-nos mais responsáveis. Não podemos celebrar a Eucaristia e esquecer quem tem fome; falar de fraternidade e ignorar quem não tem casa; rezar pela paz e alimentar divisões; falar de dignidade humana e permanecer indiferentes à dignidade ferida de tantos irmãos.

São Paulo, na segunda leitura, fala-nos da esperança que nasce da morte e ressurreição de Jesus. Não somos pessoas sem futuro, nem estamos condenados ao pessimismo. Mas a esperança cristã não é cruzar os braços à espera de que Deus resolva tudo. É acreditar que vale a pena trabalhar, lutar pelo bem, defender a dignidade humana e construir um mundo mais fraterno, porque Cristo venceu a morte.

Neste domingo termina também a Semana de Oração pelos Seminários. O lema proposto pelos nossos bispos, «Comunidade que reza, Seminário que floresce», recorda-nos que as vocações são responsabilidade de toda a comunidade cristã. Precisamos de jovens que descubram a alegria de entregar a vida ao Evangelho e de sacerdotes que sejam homens de Deus, próximos das pessoas, atentos às suas dores e comprometidos com a construção de uma sociedade mais humana.

Irmãos e irmãs:

Talvez a pergunta mais importante deste domingo seja esta: onde estamos a gastar o nosso azeite?

Naquilo que é passageiro e superficial ou naquilo que verdadeiramente dá sentido à vida? Na crítica fácil ou no compromisso? Na indiferença ou na solidariedade? Na preocupação exclusiva com os nossos interesses ou na construção do bem comum?

Não deixemos que a nossa vida se encha de coisas e fique vazia do essencial. Não deixemos que a nossa fé se reduza a palavras e celebrações sem consequências na vida.

Peçamos ao Senhor a sabedoria de que fala a primeira leitura, a esperança que São Paulo anuncia e a vigilância a que Jesus nos convida.

E que, quando ouvirmos o grito «Aí vem o esposo!», não tenhamos apenas uma lâmpada nas mãos, mas uma vida cheia de fé, de justiça, de solidariedade e de amor.

Porque uma Igreja com as lâmpadas acesas tem de ser também uma Igreja capaz de iluminar as noites dos homens e das mulheres do nosso tempo.

Ámen.

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